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segunda-feira, 26 de junho de 2017

Debaixo da pele

Debaixo da minha pele há mar.
Só pode haver mar. 
Não existe outro elemento.

Debaixo da pele tenho a serenidade azul e transparente de quem encontrou o sentido da vida.

Debaixo da pele tenho a fúria das marés que se levanta quando o caminho se torna tortuoso, sinuoso e recôndito.

Debaixo da pele tenho a liberdade das ondas e a espuma dos dias. Tenho redemoinhos e correntes. Frias ou quentes. Nunca mornas.

Debaixo da pele tenho uma imensidão redonda, sem princípio nem fim. Tenho a profundidade dos oceanos e a linha do horizonte. Tenho crateras profundas, rasgadas da crosta e tenho recifes de corais a perder de vista. 

Debaixo da pele tenho as salinas de onde as lágrimas se deitaram. Tenho a força dos moinhos de maré que trituram as amarguras semeadas pela vida. 

Debaixo da pele tenho guelras que me deixam respirar quando não consigo manter-me à tona da água. Tenho uma carapaça de escamas que não deixa os arpões espetarem. Tenho as cores dos raios de sol que se decompõem na água. 

Debaixo da pele tenho o som e a doçura que embalam, que curam. Tenho o vibrar da vida e uma paz que dura.

Debaixo da minha pele tenho um mar só meu. Onde pertenço e onde sou.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Andar sobre o fogo

Hoje tive uma conversa que me fez começar a borbulhar. O meu cérebro e o meu coração ligam as turbinas e desatam a produzir umas bolhas de qualquer coisa que têm que saltar cá para fora. E tudo começou com um "cair de ficha", como costumo dizer. De repente, cai-nos uma ficha e descobrimos qualquer coisa que sempre esteve à frente dos olhos e nunca tínhamos conseguido ver. Ou descobrimos uma coisa nova que faz todo o sentido na nossa vida. Ou que tem a ver com o próprio sentido da nossa vida. Estas quedas de ficha também me acontecem de vez em quando. Hoje em dia, as minhas fichas caem muito mais facilmente, sem muito esforço, e sem ser necessário montanhas de sofrimento. Houve muitas aprendizagens e descobertas que fiz, no passado, a toque de caixa. Com muita dor. Com muito coração partido. Com muitas lágrimas. Hoje em dia, parece que sou melhor aluna e as descobertas já não doem tanto. Já são mais fáceis. Quando conseguimos entender que o sentido da nossa vida passa muito pela evolução da nossa alma, a coisa suaviza-se. Quando deixamos a vida fluir, resistindo à tentação de controlar seja o que for ou quem for, respirar torna-se mais fácil. Quando somos capazes de ir aceitando (melhor ou pior) aquilo que não depende de nós para mudar, o sofrimento atenua-se. E, por ultimo mas não menos importante, quando conseguimos ter no peito um verdadeiro sentimento de gratidão por aquilo que a vida nos proporciona, começamos efetivamente a viver no sentido pleno da palavra. Aceitando que não somos perfeitos. Aceitando que os outros não são perfeitos. Aceitando que fazemos escolhas erradas. Aceitando que os outros fazem escolhas que nos parecem erradas. Entendendo que podemos sempre voltar a escolher. Que construir, desconstruir e construir de novo faz parte do viver plenamente. Faz parte do jogo. E que a dimensão temporal também é uma variável muito importante a considerar. Tudo tem o seu tempo certo. Tempo de amadurecimento, tempo para o entendimento. Não vale a pena apressar a vida. Não vale a pena saltar etapas por muito que isso seja tentador. A aprendizagem é um processo que necessita de tempo para poder ser integrada. Não vale a pena tentar enfiar pelos olhos do outro a dentro aquilo que ele não está ainda preparado para ver. Mesmo que esteja à frente dos nossos olhos. Os nossos olhos não são os olhos do outro...e, como a cultura oriental, na sua imensa sabedoria, costuma dizer: "só quando o aluno está pronto é que o mestre aparece". Não vale a pena aparecer antes. Porque até para se aprender, é preciso que exista predisposição. 

Houve um professor meu que me disse uma coisa que ainda hoje guardo e sobre a qual reflito muitas vezes: "só se aprende aquilo que já se sabe". E é tão verdade! Só se consegue aprender sobre a vida e sobre nós próprios se existir uma inquietação mobilizadora. E se já tivermos qualquer coisa atrás da orelha que nos aponta o caminho. Que nos causa desconforto, que nos pica a sola dos pés. O conhecimento já anda cá dentro a bailar embora precise de ser organizado e integrado para que se transforme em aprendizagem. Cada bocadinho de qualquer coisa que se aprende (verdadeiramente) é como um bloco de tijolo que vamos transpor para a nossa vida do dia a dia. Cada coisa que se aprende, executa-se a viver. Se qualquer coisa fica apenas no plano do conhecimento, não faz transformações na vida. Tem que se esperar que caiam as tais fichas. E que, de repente, se faça luz. Eu adoro os caíres de ficha. São assim como um click transformador depois de um conjunto de vivências, experiências, peripécias e outras coisas do género. Misturam-se uma data de ingredientes, por vezes sem nexo, e puf, cai uma estrela na nossa cabeça e ilumina-se a alma. Descobrem-se as nossas verdades. Descobre-se a parte mais maravilhosa do nosso ser: a nossa essência! 

Estas fichas costumam cair a pessoas especiais. Principalmente àquelas que são cheias de talentos e de capacidades e que não sabem para que lado hão de ir. Porque sabem (às vezes inconscientemente) que poderiam ir para todos os lados que desejassem. Mas não sabem bem o que desejam. Têm dificuldade em escolher. Principalmente em escolher com o coração. Pensar com o coração e sentir com a cabeça. Isto é muito difícil de se fazer. É preciso que se percam muitos medos, receios e outras emoções menos positivas. É preciso sacudir esta tralha toda dos ombros e dar o peito ao que vier. Com muita confiança e com muita coragem. Isto também é muito difícil de ser feito. Mesmo para pessoas muito especiais. Mas não é nada impossível. Está perfeitamente ao alcance. Basta que se tenha muita vontade e que se encontre um sentido de vida, um móbil. E esse sentido tem que ser procurado lá dentro, no interior do coração. Nada se pode passar fora como deve de ser se não conseguirmos arrumar a nossa alma por dentro. Este processo é um dos tais que precisa do seu tempo. De paciência e de coragem. Para se olhar para dentro com olhos de ver, é necessário que se tenha muita coragem. Quem conseguem andar sobre o fogo ainda melhor consegue pisar os trilhos interiores. Sem medo de se queimar. Quem põe os pés nas brasas acreditando que uma passada forte e decidida evita a dor e a queimadura, é porque tem fé. Acredita que é assim apesar de tudo indicar o contrário. E a vida constrói-se com este tipo de fé. Atirando-se para voar, com a fé de que, no momento exato em que são necessárias, as asas aparecem. E funcionam. A fé pode ser definida desta forma. Andar sobre o fogo é um ato de fé. Olhar para dentro e descobrir-se a si próprio também é um ato de fé. Porque ter fé é ser mais forte do que o medo que se sente. E quando se leva a vida a toque de fé, olha-se o medo nos olhos, de frente. Quando se põe os pés descalços nas brasas, também se encara o medo, ombro a ombro. E o medo tem muito medo deste tipo de coragem. Apouca-se, diminui e desaparece. Ou deixa de causar mossa. Fica atirado para um canto qualquer...

E no dia em que somos capazes de ser mais fortes do que os nossos medos, as fichas caem. E as descobertas fazem-se. E a vida interior começa a organizar-se. O problema é que na esmagadora das vezes, quando o interior se organiza e se descobre, o exterior deixa de fazer sentido. Descobre-se que não se pertence à vida que se tem. Que o material de construção que usámos foi oco e alicerça uma realidade que já não existe cá por dentro. E isto é uma grande chatice...o desalinhamento que existe entre o "eu" e o "mundo". Onde pertencia, já não pertenço. O que fazia sentido, já não faz. O que foi já não é. A má notícia é que não se pode voltar atrás. Fez-se o que se foi capaz de fazer. Ponto. A boa notícia é que se pode começar de novo. Cada vez que o sol se levanta, dá-nos mais 24 horas de possibilidade de alinhar a vida. De alinhar o "fora" com o "dentro". O fora tem que estar em consonância com a nossa essência, com os nossos mundos interiores. Não é o contrário. Fica-se doente quando anulamos o nosso âmago, o nosso interior para que se possa encaixar no ambiente externo. Fica-se doente a valer. Fica-se triste. Sem ânimo. Perde-se a vida. Perde-se a maravilha da vida. Quem consegue andar sobre o fogo, duma pernada, ultrapassando-se a si próprio, também é capaz de começar de novo, devagarinho, com serenidade, com fé e com coragem. Quem perde o medo de se queimar também perde o medo de viver de acordo consigo próprio. E é só ouvir o coração, o melhor incentivo vem de dentro. Afinal, tudo o que temos de melhor, vem de dentro. 



sexta-feira, 28 de abril de 2017

O Planeta das Tolas

Apetece-me escrever sobre um planeta que fica numa outra dimensão qualquer. Deve ser o meu planeta de origem. Diferente deste onde vivo. Sinto-me tantas vezes uma ET que me parece que devo mesmo vir de outro planeta. Conheço mais gente assim (muito pouquinha, só uns exemplares raríssimos). Se calhar viemos numa fornada qualquer e, por engano, caímos de para-quedas nas nossas famílias. Esta é uma suposição que cada vez me faz mais sentido. É que explica muita coisa. E se este planeta se chamasse o Planeta das Tolas ainda mais coisas explicava. É assim que me sinto neste momento. Uma tola. E as tolas costumam ter um coração cheio de cicatrizes e uma cabeça cheia de interrogações. Não entendem muitos dos registos das outras pessoas. Não entendem as suas formas de relacionamento, de comportamento. Não entendem aquelas coisas de só se pensar no seu próprio umbigo sem se pensar nos umbigos dos outros. Não entendem as relações unívocas em que só se recebe e não se retribuí nada.

No Planeta das Tolas, as pessoas preocupam-se umas com as outras. Querem saber. Não pensam só em si próprias. O que falam é o que verdadeiramente pensam e não têm jeito nenhum para segundos sentidos nem para conversas veladas. Quando as Tolas gostam de alguém, não sacodem as pessoas, não entram em hibernação nem ficam em estado de refrigeração. São transparentes naquilo que sentem e naquilo que dizem. Quando deixam de gostar, vão à sua vida sem abandono, sem ferir, sem desculpas esfarrapadas. São honestas. As Tolas são sensíveis e transparentes. Por isso é que são de outro Planeta. Neste onde vivemos, são uns bichos esquisitos que quase ninguém compreende. A sorte é que o mundo não sabe que as Tolas são ET's. Se soubesse, fechava-as assim​ nalgum laboratório para estudo. Assim, aparentam ser apenas umas patetas ou tolinhas com a mania que o mundo é cor de rosa. As Tolas sabem que o mundo não é cor de rosa. Mas procuram fazer o melhor que sabem para que assim seja. As Tolas teimam em não querer estar centradas naquilo que os outros têm de pior. Procuram o que há de melhor. Procuram a luz em vez da escuridão. Gostam de simplicidade em vez de intrincados complexos. Neste mundo parece que ser-se simples ou gostar-se de simplicidade é ter-se mau gosto ou ter-se falta de inteligência. Quem é que consegue compreender isto? Nós, as Tolas, não conseguimos. Também não conseguimos entender porque é que as pessoas se relacionam tanto connosco por necessidade, colo, conforto e outras coisas boas que lhes damos sem exigir nada em troca. Apenas precisamos que cuidem e gostem um bocadinho de nós. De forma simples, sem cobranças, sem stresses. Mas pelos vistos, isto é muito difícil. É muito fácil gostar das Tolas assim pela superfície. Estão sempre disponíveis para ajudar e para cuidar dos outros. Sabem gerir o tempo e as focalizações de forma a que haja um bocadinho do dia em que conseguem sempre lembrar-se das pessoas que amam. Sabem que amor é a coisa mais importante do universo. Mas este conhecimento é muito desconhecido pelos não tolos e as Tolas não são compreendidas. E é difícil amá-las. Parece-me que é mesmo muito difícil acreditar que as Tolas são verdadeiramente como são. Sem cartadas na manga. Sem grandes mistérios. Têm muita força de carácter, muita força de alma mas não têm segundos sentidos nem se movem a interesses. São transparentes como a água se se tiver a disponibilidade para se olhar com olhos de ver. Mas esta disponibilidade é qualquer coisa em vias de extinção no mundo dos não tolos. É tudo muito rápido e muito imediato. Já ninguém quer saber, com calma, o que se está a passar. O que é que o outro pensa ou sente. Já ninguém se coloca verdadeiramente no lugar do outro. Essa é uma capacidade que só assiste às Tolas. De tal maneira que se rebentam todas só por compreender como é difícil a vida dos outros. E passam a vida a desculpar e a deixar passar as desconsiderações e descoordenações. Sabem que as linguagens são diferentes. Que as referências são diferentes e que os não tolos não têm culpa de serem tão espertos. A chatice é que as Tolas também não têm culpa nenhuma de serem como são e de terem vindo de outro planeta. Do Planeta das Tolas. Ou, pensando melhor, do Planeta das Tolas ao Quadrado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Uma palavra muito feia

Procrastinar. Hoje vou escrever sobre esta arte de “(…) deixar para depois; fazer mais tarde, adiar, etc.”

Que palavra feia! Parece um palavrão daqueles bem cabeludos! Um verdadeiro palavrão, ao ser dito, normalmente causa alívio a quem o diz. De vez em quando sai-me um pela boca fora e faz-me um bem desgraçado. Baixa-me a pressão e deita-me água na fervura. Funciona assim como um calmante em modo de SOS. Agora esta palavra feia – procrastinar – tem exatamente o efeito contrário em quem a usa. Carrega a pressão, aumenta o stress, a ansiedade e o sofrimento. Também tem um significado muito impostor: parece que causa algum alívio momentâneo quando deixamos para depois qualquer coisa que nos chateia. Mas esse alívio é mesmo momentâneo. É como quem pára a ganhar balanço para depois se atirar contra a parede com muito mais força, fazendo muito mais estrago. Já entraremos por esta questão adentro. 

Hoje falei com alguém (muito importante e que mora no meu coração) que anda com esta atitude na baila. Se calhar até anda a tomar consciência das consequências de tomar “procrastina” todos os dias ao pequeno-almoço. Depois de uma noite mal dormida, a pensar na vida, toma-se uma boa dose deste remédio. E nesse dia, parece que o coração e a cabeça ficam um bocadinho mais aliviados. Mas, logo à noite, os fantasmas e os medos voltam. A tal da “procrastina” é um remédio atitudinal que só alivia momentaneamente e que tem uns efeitos secundários levados da breca. Deve ler-se a bula para verificar se vale a pena gastar-se disso lá em casa.

Parece-me que é uma decisão que se toma quando se anda muito ocupado a fazer-se coisas pouco importantes para não se ter tempo para fazer o que se deve ou para se resolver o que já deveria estar resolvido. Como alguém disse, há duas maneiras de não se ter problemas: ou se evitam ou se resolvem. Deixar para resolver um dia destes não parece ser a solução. De facto, procrastinar é apenas adiar as situações. E, na maioria das vezes, quando finalmente vamos tratar do assunto que andamos a adiar, já pagamos juros de mora. E a vida a cobrar juros costuma ser mais dura e implacável do que os bancos. Por vezes também inventamos estratégias de fuga, bem camufladas, só para não olharmos de frente para o que tem que ser feito. O curioso é que quando se adia algo, passamos a vida a pensar no assunto, com pesar, culpa e peso na consciência. Não fazemos nada, não decidimos nada, não fechamos processos mas gastamos um montão de energia a carregar o fardo. É que se o fardo existe, ele pesa-nos. E vai pesar enquanto não o descarregarmos e arrumarmos no sítio certo. Quanto mais tempo o carregarmos, mais nos vão doer as costas. Ficamos mais fracos e os fardos, tendencialmente, ficam mais pesados. Não vale a pena adiar o que tem que ser feito. Adiar só causa mais sofrimento a nós e aos outros. 

É verdade que as decisões tomadas por impulso, sob o efeito de uma grande raiva, de uma grande tristeza ou de uma exuberante alegria, também não são lá grandes decisões. Coisas importantes devem ser bem ponderadas e amadurecidas. As decisões que podem mudar o rumo da vida precisam de alguma marinada para se tomarem. Mas marinada a mais estraga o tempero. E os ingredientes. Nestas coisas deve haver sempre algum equilíbrio para que a vida possa fluir no sentido do nosso bem-estar e da nossa felicidade. A procrastinação pode ter uns pós de bruxaria que transforma coisas sem importância e simples, em questões maiores e que indispõe muito as outras pessoas. Complica aquilo que é simples e enrola aquilo que é a direito. A procrastinação faz até com que as pessoas, sem querer, percam a noção do valor da “palavra de honra”, do “prometo”, de “certeza absoluta” e do “está combinado”. Perdem credibilidade no que dizem tendo em conta o que fazem. E é uma pena porque não o fazem por mal… mas fazem francamente mal a si próprios e aos outros à sua volta. Estes são alguns dos efeitos colaterais de se tomar a tal dose de “procrastina” ao pequeno-almoço (ou a outra refeição qualquer). Um outro efeito que pode ter é o de se andar sempre a correr, a procurar cumprir o que já está fora de prazo. É que as tarefas vão-se amontoando, umas em cima das outras de forma mais ou menos caótica. Os tropeções acontecem, o planeamento deixa de fazer qualquer sentido e anda-se sempre no fio da navalha. Faz-se tudo em cima do joelho na ânsia de se tentar minorar o estrago. Isto no que diz respeito ao trabalho. Não se faz o melhor que se consegue. Faz-se o mais depressa que se consegue depois de se já ter gasto todo o tempo disponível com mil e uma outras coisas. E, lá no fundo, ficamos tristes com o nosso desempenho. Nós somos os nossos piores juízes. E culpa aproveita logo a oportunidade para nos invadir a alma. E a culpa é um sentimento horrível que não traz nenhum valor acrescentado. Só nos diminui. Mas isto é outra conversa que ficará para outra oportunidade. Agora estamos ainda a falar da sua irmã gémea, a procrastinação. (Não são gémeas verdadeiras, mas nasceram da mesma barriga e são irmãs na mesma. Normalmente passeiam juntas.)

No que diz respeito à esfera pessoal, esta menina mal comportada faz com que as pessoas passem pela vida em vez de a viverem como deve de ser. Custam a fazer opções e deixam-se estar mesmo que doa. Também nestas circunstâncias não se faz por mal. Mas faz-se muito mal. Sofre-se e, de tanto não se querer magoar os outros, acaba-se por magoá-los ainda mais. Porque os outros sabem, sentem e pensam. Porque os deixamos presos a nós mesmo quando já não há nada de bom que prenda. Porque nos deixamos estar apenas em faz de conta. Porque não vivemos nem deixamos viver. Procrastinamos ruturas porque dói romper. É verdade. Mas vale a pena pensar que mais vale doer tudo de uma vez do que doer às prestações, sangrando e rasgando a nossa carne e a carne do outro. O irrecuperável não se recupera. E é uma ferida aberta que nunca sara. A dor crónica e persistente rebenta com tudo o que de bom ainda pode fazer parte da equação. A dor e a raiva são como uma nuvem negra que apaga o que de bom existe. As ruturas no momento certo tendem a não deixar degradar as partes boas das coisas. Evitam dores maiores, efeitos colaterais de monta e preservam as partes bonitas. Adiar o que já não tem remédio só faz crescer as coisas más. E nunca se sabe o tamanho que uma coisa má pode atingir. Nunca se sabe. É imprevisível, por mais que se pense no assunto e por mais prisma que se descubra. Este é um exemplo de adiar a resolução de uma situação que causa dor. Também se pode fazer o contrário. Adiar a decisão de se puxar à nossa vida o que nos faz bem. O que nos deixa feliz. E enquanto decidimos e não decidimos, as oportunidades passam, as situações seguem com a corrente e as pessoas vão à sua vida. Também quando se adia o bom corre-se o risco de o perder. Já passou enquanto ficámos a pensar se sim ou se sopas. Ao contrário do que se pensa, é tão difícil decidir pelo bom como é difícil descartar o mau. 

Há um ditado popular que faz todo o sentido encaixar neste contexto: “prefiro o mal que conheço ao bem que não conheço”. Que tal? Profundo, hein? Pois é. Cai aqui que nem uma luva. E passo a explicar. Como tantas vezes tenho dito, tomamos ou deixamos de tomar decisões em função do medo. E às vezes preferimos ficar na nossa zona de conforto (mesmo que não nos conforte nada) do que dar um salto para algo de bom mas que é fora do nosso habitat, do nosso quadrado. O desconhecido costuma dar um medo danado. Na verdade, uma das razões pelas quais procrastinamos é porque temos medo. Medo de sofrer, medo de magoar os outros, medo da rejeição, medo de errar, medo de ser julgado, medo de ficar pequenino e indefeso. Medo de não ser capaz. Medo, medo, medo. E todos os medos são legítimos. Todas as pessoas têm medo. O medo faz parte de sermos humanos. Não podemos é deixar que o medo seja mais forte que o amor. O amor que devemos nutrir por nós próprios e pelos outros (todas as espécies de amor) deve ser mais forte do que os nossos medos. Este é um dos desafios da vida e um dos seus sentidos mais profundos. Utilizar o nosso tão sagrado livre-arbítrio em função do amor e do respeito por nós e pelos outros ao invés de o gastarmos alimentando os nossos medos.

Claro que também procrastinamos por razões mais simples e menos profundas, apenas baseadas nos princípios da chatice e do prazer. Adiamos o que nos chateia ou aborrece. E não encaixamos nas nossas cabeças duras que algures, mais tarde ou mais cedo, vamos ter que passar pelo aborrecimento que estamos a adiar. É mais fácil despachar primeiro o que nos aborrece. Fica despachado e sai-nos da ideia. E ficamos com mais tempo e mais disponibilidade para o que nos dá prazer. Se fazemos primeiro o que nos dá prazer, ficamos com o bichinho da chatice e moer-nos a alma e não conseguimos desfrutar verdadeiramente de um momento ou atividade que poderia ser tão boa. Há sempre uma nuvenzinha a tapar o sol.

Apesar de tudo, penso que cada pessoa é uma pessoa, com as suas especificidades e os seus momentos certos para ser capaz de fazer o que tem que ser feito. Eu sempre sofri do problema ao contrário. Eu tive que trabalhar o facto de ser tão resolutiva. De despachar e resolver num instante o que me cheirava que tinha que ser resolvido. A vida fez-me o favor de me ensinar a amadurecer as decisões. A ponderar as causas e os efeitos e a deixar que o tempo faça a sua magia. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Uns de nós têm que aprender umas coisas e outros o seu inverso. Mas é para isso que cá andamos, para aprender e enriquecer a alma. Para encontrar as peças do puzzle que nos faltam. Para aprender que, tal como para não procrastinar ou para não ser impulsivo é preciso trabalhar a nossa coragem. A tal força interior que nos ajuda a saltar para o desconhecido com a certeza de que não caímos. A coragem faz parte da fé. E a fé também se resume em fazermos a nossa parte, em primeiro lugar, sabendo que o Pai vai lá estar para fazer a parte Dele. A nossa parte é dar o salto sabendo que o Pai nos dará um chão fofo onde aterrar. A coragem e a fé andam sempre de mãos dadas. São a antítese da procrastinação e do medo. São forças motrizes que se manifestam em cada decisão pequenina que tomamos. Em cada “não” ou em cada “sim” que dizemos em função do bem. De qualquer espécie de bem. Ou de qualquer forma de amor.

Vale a pena pensar se o que chutamos para o ar, deixando para depois, não nos vai cair em cima mais à frente. Relembro que a força da gravidade puxa tudo para baixo, com a maior verticalidade possível. Se encontrar a nossa cabeça pelo caminho, esborracha-nos o cérebro. Não me parece que valha a pena. Quando chutamos a lata, temos o mesmo problema. Os metais pesados também tendem a ficar no nosso sistema. Ficam no nosso caminho e vão-se acumulando até serem um amontoado de sucata e ferro velho que se encontra à nossa frente e que nos impede de ver a vista do outro lado. Também não vale a pena, com tanto mundo lindo para apreciar.

Resumindo: procrastinar só faz mal. Bem me parecia que esta palavra era muito, muito feia…

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pesos e medidas

Hoje tenho estado a pensar sobre as medidas da importância. Como é que se pode medir o quanto nos importamos com os outros ou o quanto os outros se importam connosco. Cada um de nós tem o seu peso e a sua medida. Porque não existe uma medida universal para algo tão importante na nossa vida? Não entendo. Existe formas de medir a tendência para o mais infinito e para o menos infinito - que ninguém sabe exatamente o que isso é - e não se mede o quanto somos significantes uns para os outros. Pelos vistos não se consegue encontrar, de forma tangível, a área que ocupamos nos outros corações. O peso que temos na vida desta ou daquela pessoa. Ou a distância que nos separa e aproxima. Nem a velocidade com que nos encontramos. Nem a profundidade com que sentimos. Não sabemos ponta do quanto, de forma palpável, contamos para a felicidade dos outros. Ou que diferença fazemos nas suas vidas. Ou se lhes dividimos as tristezas, pomos em comum os gostos e multiplicamos as alegrias e os sorrisos. Parece que a matemática, afinal, não interessa para grande coisa. Só serve para ajudar a edificar fora de nós. No meio ambiente: pontes, estradas, arranha-céus e outras coisas do género. Para aquilo que verdadeiramente interessa, não ajuda. Não ajuda no que diz respeito às medidas do nosso coração e do que se passa lá dentro. Todo o nosso mundo relacional é construído às apalpadelas, por tentativa e erro. Por isso é que passo a vida a dizer que não vale a pena racionalizar as emoções e os sentimentos. Para quê? Não bate certo. Os sentimentos são intangíveis e fluidos. São invisíveis e, no entanto, podem ter tanto pano para mangas. Têm formas pouco geométricas e tantos ângulos quantos os pontos de vista. Não são dados a sequências nem se regem pelas regras das probabilidades. De facto, a parte mais significativa da nossa vida é completamente avessa a qualquer género de categoria, estatística, percentagem ou racionalização. Nem uma matriz como deve de ser se consegue fazer com os nossos sentimentos. Não dá para nada. Apenas podemos tratar dos sentimentos e das emoções com a balança que Deus nos deu: o coração. Não há outra forma. E colocar a cabeça a pensar em função do coração e não o contrário. Deve-se “emocionar” a cabeça ao invés de se “racionalizar” o coração. Difícil mas possível e desejável. De vez em quando apetecia-nos ter uma fórmula resolvente que resolvesse estes enigmas sem grande gasto de energia. Mas, tal como já disse anteriormente, as fórmulas matemáticas não aquecem nem arrefecem o que se passa no coração. É como misturar bagos de romã com tapetes persas: nada a ver uns com os outros.

Este assunto dá-me sempre volta à cabeça. Por vezes dizem-nos que somos muito importantes e muito especiais mas não nos cuidam. Deixam que as distâncias sejam de separação e não de encontro. Deixam que se possa medir o que nos separa em quilómetros ou em horas de silêncio. Eu que adoro palavras não as concebo sem conteúdo que é o mesmo que dizer, sem substância, sem comportamento em conformidade. De que vale dizerem-nos que somos bonitas e atuarem connosco como se fossemos feias. Ou fazerem-nos sentir que somos feias. Esta é apenas uma forma de ilustrar as discrepâncias que podem existir entre aquilo que as pessoas dizem e a forma como se comportam nos relacionamentos. Por vezes, nestas circunstâncias pode-se usar uma unidade de medida: a diferença é de metro! Ou, talvez as questões sejam geometricamente circulares e desenhadas a compasso, traçando-se uma linha fechada à volta de um ponto central: o umbigo de cada um! Há pessoas que são centradas no seu próprio umbigo!

Não compreendo porque é que os uns se esquecem dos umbigos dos outros. É que toda a gente tem um umbigo! E os umbigos são todos importantes e gostam de ser respeitados e considerados. Já foram ligação de vida. Já tiveram um papel muito importante, no útero materno. Mas é preciso dar um passo em frente e entender-se que o círculo desenhado à volta do meu umbigo termina na fronteira do circulo do umbigo do outro. E que deve haver linhas e áreas de interseção. Deve haver concessões e respeito mútuo pela importância que todos os umbigos têm. Mas esta coisa do respeito pelo outro também não se mede nem se pesa. Apenas se faz um cálculo aproximado e tosco, em função dos comportamentos que se nos apresentam. E depois, para complicar a história, as parcelas que uns usam para calcular são diferentes das parcelas de outros. E isto é uma grande confusão de narizes. Ou conseguimos respeitar profundamente as diferenças com um espírito de aceitação inabalável ou não há matemática que nos safe. Cá no meu conceito, haveria de existir um sistema bem montado de medida das coisas do coração. Toda a gente sabia em que pé é que andava e com o que podia contar. Assim, gastamos um montão de energia a tentar perceber as coisas, as razões e as consequências sem que se consiga chegar a grandes conclusões. E, apesar de me chamarem de linda, parece-me que há dias em que não sou linda que chegue. 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As minhas janeiras

Queria que o Ano Novo cheirasse a morangos.
E que fosse macio como as nuvens.
E que fosse quentinho como o entardecer de junho.

Queria que o Ano Novo fosse sereno e ternurento.
Queria que me matasse a sede de calmaria.
Queria que fosse um caminho largo e reto, sem curvas.

Queria que o Ano Novo soubesse a mar, salpicado a flor de sal.
Queria que me matasse a fome de vida.
E que me lavasse as mágoas, cruas.

Queria que o Ano Novo fosse recém-nascido.
E que viesse apenas com a Graça que Deus lhe deu. 
E que trouxesse duas estrelas do Céu. 
Todos os recém nascidos trazem duas estrelas, uma em cada olho pestanudo. Uma ilumina o dia e a outra ilumina a noite. É o bastante.

Queria que o Ano Novo fosse uma cama de rede. 
Onde o nanar tem um efeito reparador.
E a alma descansa, serena.

Queria que o Ano Novo fosse um copo de pé alto.
Com dois dedos de bom vinho tinto.
Saboreado calma e intensamente, na melhor das companhias. 

Queria que o Ano Novo tivesse a pureza e a liberdade de uma papoila.
E queria que fosse um campo selvagem e aberto, a perder de vista.

Queria que o Ano Novo fosse tudo isto.
Só para variar.

A sorte não existe

Estou a ouvir uma música que gosto muito e cujo refrão é assim do género "...deixa-te ficar na minha casa, há janelas que tu não abriste...ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste...". Estes bocadinhos de refrão resumem a coisa. É difícil deixar partir quem foi muito significante na nossa casa, isto é, no nosso coração. E por mais que se salte de grande amor para fora, se a coisa não ficar bem resolvida, não descola, não desanda. Fica presa ao coração de uma forma viscosa, peganhenta e não há forma de arrancar. Vale a pena pensar nisto. Para se sair de um grande amor, ou se sai à força porque é o amor que sai de nós, da nossa casa, ou é melhor pensar bem sobre o assunto.

Tudo tem o seu tempo e o seu momento certo. Claro que por motivos de personalidade, esta é uma das minhas maiores dificuldades: perceber o tempo certo das coisas e das pessoas. É uma aprendizagem diária. E os amores também têm um tempo certo para tudo. Até para serem arrancados do peito. E, mesmo assim, não sei se não temos que dar um passo atrás e perceber se é um amor que se arranca ou que se guarda numa das gavetas do coração. Quando se quer saltar fora de um amor, seja lá porque motivo for - talvez porque só amar não chega - temos que refletir mais do que nunca. Não estou a falar de uma relação que termina porque o amor acabou. Isso é pacífico do ponto de vista que me interessa abordar. Não. Estou a falar de se terminar uma relação onde o amor ainda abunda. Mas onde, infelizmente, só o amor não chega. Pode chegar-se a um ponto onde o que magoa é mais pesado do que o bem que circula. Onde as lágrimas são mais do que os sorrisos e os sonhos. Pode haver um dia em que a balança se desequilibra para o lado do sofrimento. Estes devem ser momentos de grande serenidade. Não se devem tomar decisões em picos de tristeza. Embora seja deveras tentador. Parece que se resolve o problema pela raiz: mata-se o bicho e vai-se a peçonha. Mas não é verdade. Aquilo parece ser um alivio momentâneo, poderá pesar o resto da vida. Às vezes apetece partir a loiça toda e pronto! Mas a loiça partida dá muita trabalheira. Faz muitos cacos e nunca se concerta. Tem que se comprar tudo de novo.

Daí que se deva pensar bem sobre nós e sobre o nosso amor. Com serenidade, com sabedoria. As boas decisões só se tomam com paz no coração. Se não, os amores vão-se embora mas a suas sombras ficam connosco para sempre. Nunca partem. E isso assombra-nos durante muito tempo. Durante o tempo que demorar a maturar e a resolver o assunto. A assombração fica até sermos capazes de arrumar o passado. De o aceitar, de o integrar, de retirar as devidas aprendizagens e de se agradecer pelo efeito. Sim, agradecer. Agradecer ao Céu pela experiência de vida. Pela oportunidade de aprendizagem. Pela evolução que causou na nossa alma. Pelos macaquinhos que nos retirou do sotão. Quando somos capazes de fazer isto, conseguimos pacificar o coração e tomar uma boa decisão. Se arrancamos o amor do peito e da pele ou se o deixamos fechadinho numa gaveta especial para o efeito. Ou se ainda não se está preparado para deixar ir. Podemos querer abrir mais janelas e dar mais de nós a conhecer, sem nada a temer nem a perder. Numa atitude de entrega total sem nunca deixarmos de ser nós próprios e sabendo que pode ir ou rachar. E, se rachar, ficamos com a consciência tranquila que fizemos o nosso melhor. Fizemos o que estava ao nosso alcance. E isso também é pacificador. Tão sábio é quem luta pelo que ama como quem o deixa ir. A sabedoria pode ter, de facto, respostas opostas para situações similares. É a beleza da coisa.

Por vezes a nossa cabeça parece um grande ponto de interrogação. Não sabemos o que havemos de fazer. Sentimo-nos num beco sem saída. Não sabemos se havemos de andar para a esquerda ou para a direita. Nestas alturas, a prioridade é serenar. Pacificar. As dúvidas são tão maçadoras como as melgas. E as dúvidas não deixam ouvir o coração. São produto da nossa racionalidade, da nossa cabeça. As dúvidas não têm coração. E o amor tem tudo a ver com o coração. Daí que valha a pena serenar a cabeça e deixar o coração invadir os nossos sentidos. Apesar da dor, vale a pena esperar para que o coração nos dê a resposta. Vale a pena deixar que este nos aponte o caminho. Relembro que o nosso coração é muito mais inteligente do que a nossa cabeça. Porque no nosso coração é onde mora a nossa essência, onde mora Deus. O caneco é que isto é muito difícil de se fazer. Implica muita maturidade, muita serenidade, muita fé, daquela da boa, à prova de bala. Implica não ter medo. Implica desapegar que é outro berbicacho difícil de descascar. Parece que tudo o que importa é difícil. Parece que sim. Até diz que as dores de crescimento são difíceis. Basta serem dores para serem difíceis de aguentar. E parece que o crescimento e que a evolução são sempre acompanhados de sofrimento. Também parece que não existe amor sem sofrimento. Aqui está uma coisa bem chata de se encarar. Amas e sofres ou não amas. Eu escolho amar. Na verdade também é bem fácil sofrer-se sem se amar. Assim como assim, já que o sofrimento faz parte da vida e do crescimento, que seja por amor. Não há causa mais nobre nem mais bonita. Disto tenho a certeza. Não tenho é a certeza se consigo tomar as decisões certas no momento certo. Não sei qual é o meu melhor para poder fazer em conformidade. É muito mais o que eu não sei do que o que sei. Mas sei que me esforço e que tento. E que me levanto todos os dias sabendo que vou continuar a lutar. Por vezes é esta a sensação que tenho quando acordo. Mais um dia para lutar, para fazer o meu melhor, para arrancar a nata que a vida tem para dar. Mas por vezes tenho medo de não conseguir fazer o meu melhor. Ou de não ser capaz de lutar mais. Tenho medo de desistir em vez de decidir com sabedoria. Tenho medo que o cansaço se levante comigo. Tenho medo que o meu melhor não seja suficiente para o que é necessário. Tenho medo que o meu amor não seja fluido o suficiente para que, tal como a água, possa encontrar sempre um caminho. Às vezes tenho medo de acordar e de não se capaz de seguir em frente. A minha sorte é que tenho um coração de leão, um dom que Deus me deu, e que me faz sacudir os medos e colocar os pés fora da cama com a convicção que o pior já passou e que o melhor está para vir. Antes de tudo, Deus deu-me esperança e coragem. Isto eu sei. E quando tudo parece sem nexo, sem propósito, a esperança devolve-me o sentido da vida e a coragem empurra-me para frente. Espicaça-me a alma. Ambas devolvem-me a energia e o entusiasmo que me caracterizam. É a minha sorte. Sorte, não. A sorte não existe, o que existe é a Graça de Deus. E essa, sinto-a todos os dias. Salva-me de mim própria.