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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um peito aberto

Quero-o bem mais do que perto. 
E por mais que procure fechar todas as portas e janelas.
Quando se vai, meu peito fica exposto, aberto.
Correm-me as tristezas pelas veias e não encontro sangue. Só água salgada. 
Leva-me o coração consigo e deixa-me a alma gelada.
Fica a noite nos meus olhos e o deserto na minha boca. 
Ficam-me as penas e poços. Ficam-me as dores e os ossos.
Ficam-me as saudades e as melancolias. 
Ficam-me os dentes afiados e as raivas vazias. 
Ficam-me os prantos e os tormentos.
Ficam os pensamentos e a vontade.
Quando se vai, leva-me o brilho, o ânimo e a liberdade.
Fico vazia.

Quero-o bem mais do que perto.
Junto a mim onde a distância não afasta o seu cuidado. 
E há um mar que se interpõe entre o meu querer e o meu peito aberto.
E a esperança esconde-se por detrás de qualquer barco parado. 
É um dos que quando não vê com os olhos não sente com o coração. 
O meu querer cabe num mundo inteiro e o seu cabe todo numa mão. 
Mão pequenina, que se fecha em concha e se enterra nas fundas areias. 
Só dá conta do seu umbigo, da sua casca e é água gelada que lhe corre nas veias. Nas minhas, transbordam torrentes salgadas. 

Quero-o bem mais do que perto.
As almas conversam sem darmos por isso. Sem querer. 
Os corações entendem-se sem esforço, sem intenção, sem feitiço. 
Só por poder. Só por assim ser. 
Porque quando está longe esquece-se de mim inteira. 
E isso magoa muito mais do que a lonjura.
Fecha o seu peito. E abre o meu. Fica aberto em ferida. 
O meu peito aberto deixa sair o que o seu cuidar não procura.
E o vazio deixa-me sem eira nem beira, quase perdida.

E porque não quero crer no que pressente o meu peito aberto,
Quero-o bem mais do que muito perto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As lâmpadas do Céu

Existem coisas difíceis de conjugar na nossa vida. Principalmente para quem acredita num mundo espiritual muito mais rico e extenso do que este que conhecemos com os nossos 5 sentidos. Conjugar o nosso bem-estar terreno com o bem supremo da nossa alma é uma coisa bastante complicada. É de ir à lágrima. Também tem dias de uma alegria inexplicável. De uma paz quase surreal. Caminhar para o bem supremo da nossa alma é uma caminhada que se faz com os pés descalços, calcando cada pedrinha que nos aparece no caminho. Os pés ficam cheios de feridas e às vezes já não nos apetece caminhar mais. Apetece desistir e pronto. Apetece calçar umas pantufas muito fofinhas daquelas que nos fazem andar nas nuvens. Mas quando me dão essas vontades (vezes demais para o meu gosto…) vou de joelhos. Tento arrastar-me. Mesmo sangrando. Se sangro é porque não consigo aceitar o que a minha alma necessita para evoluir. Ou então estou a experienciar as consequências das escolhas menos boas que fiz. Tudo para aprender. A questão é que ainda não consigo aprender serenamente todas as lições que a vida me quer ensinar. Ainda esperneio muito. Ainda me enfureço de vez em quando. Ou tenho pena de mim própria o que também é um sentimento pouco nobre. Mas lá vou levando o dia-a-dia da forma possível tentando fazer sempre o que o Céu me indica como melhor. Cá na minha maneira muito particular de escutar o Céu, lá vou dando um passo atrás do outro. E o que interessa é que vou conseguindo. Não é com pantufas fofinhas mas é com a ajuda dos anjos que me aliviam o peso do meu próprio corpo. E o caminhar lá fica mais leve. Eu até gostaria de refilar mais um bocadinho mas não posso. Sei que foi a minha alma que escolheu este caminho. Antes de nascer, a malta combina lá no Céu aquilo que tem que passar, o que tem que experimentar para poder evoluir como alma. E eu (com o meu feitio) devo ter escolhido aprender uma data de coisas de uma assentada só. Devo ter feito uma lista que me permitisse tratar de um montão de assuntos de uma só vez. Para não passar a vida a andar para trás e para a frente de reencarnação em reencarnação. Sabendo disto, como é que a pessoa vai refilar muito e soltar os cavalos maldizendo os tropeções do caminho? Não pode, tem que agradecer bem do fundo do seu coração. Saber das coisas nem sempre traz felicidade. Normalmente traz tristeza e chatices. A ignorância é uma senhora muito feliz! Não se aborrece com nadinha na vida. Tanto se lhe faz como se lhe fez. Saber-se qualquer coisita já traz uma grande responsabilidade. A responsabilidade, em primeira instância, de salvarmos a nossa alma. De aprendermos, de evoluirmos, de nos tornarmos cada vez melhores pessoas e enriquecer a alma com a luz da bondade que vamos conquistando e amealhando no coração. E não vale a pena querer fazer alguma coisa pelos outros antes de começarmos a fazer primeiro por nós próprios. E não, não se trata nada de egoísmo, pelo contrário. Só podemos dar o que temos. Só podemos amparar o que somos capazes de compreender. Só ajudamos a levantar alguém se tivermos força para nos sustermos de pé. Se não formos primeiro cá dentro não conseguimos ser para os outros. Ou então somos de uma forma parasitante. Ajudamos os outros para nos alimentarmos de agradecimentos e de reconhecimentos. Aconchegamos os nossos vazios com a ilusão do que vem de fora para dentro. Coisas um bocadinho complexas. Mas pronto, o ser humano é infinitamente complexo e infinitamente simples dependendo da perspetiva com que se olha. Na minha estranha forma de saber das coisas, sei que o mundo espiritual é muito simples. O Céu é muito simples embora profundo e extenso. Embora cirurgicamente justo, verdadeiro, generoso e livre. A liberdade que o Céu dá por vezes até me assusta. Este poder que tenho nas mãos de escolher o que me der na bolha é altamente assustador…e se a minha bolha se avariar? E eu só escolher fazer asneirada para a minha alma? O Céu deixa. Antes não deixasse. Antes não me desse assim tanta liberdade. Mas é assim mesmo. O respeito pelo ser humano e pelo seu livre arbítrio são sagrados para o Céu. Ninguém tem autorização para mexer no livre-arbítrio de cada um. E como sempre costumo dizer, o maior medo que tenho é de mim própria. De não saber escolher bem as sementeiras. De não saber honrar a confiança que a minha alma depositou em mim quando combinou que eu viria para cá nesta vida aprender o abecedário de A a Z, custasse o que custasse. E limpar uns carmazitos pelo caminho. A minha sorte é que o nosso Pai, na sua infinita generosidade, deixa-nos experimentar o que combinamos mas, pelo sim pelo não, manda-nos umas ajudas suplementares para aguentarmos o trajeto. E o Pai tem sido muito generoso comigo. Tão generoso que por vezes até me sinto mal comigo própria por não conseguir andar mais feliz e alegre. Na sua generosidade, o Pai tem-me capacitado com aquilo que eu nem sonhava poder existir. Tem-me rodeado do que eu necessito. Tem-me dado a força e a presença de espírito que me fazem falta para seguir o tal caminho sem bússola. Tem-me dado o conhecimento e a forma de o colocar em prática para o meu bem e para o bem dos outros. Por vezes receio não conseguir corresponder a tanta confiança que me foi depositada. O que me consola e o que me afasta o medo é ter a certeza de que a paciência do nosso Pai é infinita. E que Ele acredita sempre em nós mesmo quando nós temos todas as dúvidas do mundo. A generosidade é, sem dúvida, mãe da força. A generosidade do Céu é assim como um GPS que nos indica qual a próxima etapa. Ajuda-nos a caminhar até lá, com amparo, mesmo quando os pés doem muito. Todas as dores que temos nos pés são descontadas na alma. A matemática do Céu também é muito simples. Também cada vez mais busco a simplicidade, em todas as suas vertentes. Ou melhor, busco a simplicidade em todas as vertentes da minha vida. A simplicidade é sempre fonte de amor. Cá para mim, o amor é a partícula original de onde salta todo o universo. Simples, como só o amor sabe ser. Nós, na nossa dimensão humana, é que temos a mania de o complicar. Se não fosse a simplicidade do infinito amor do nosso Pai, onde estaria eu? Talvez refastelada no sofá, sem bolhas nos pés e com uns joelhos bonitos. Mas oca, vazia e com a alma chorosa. Tenho a certeza que cada lágrima que me sai dos olhos é menos uma que a minha alma chora. E quanto menos chora, mais brilha. E essa é essência da coisa: tornar a nossa alma tão brilhante que quando voltar a casa vai direitinha para o sítio das lâmpadas, ajudar a encher o Céu de luz. Para sempre.

O fim do mundo

Há dias em que não me apetece escrever. Não é muito bom sinal. Normalmente é sinal de tristeza, daquela que não se trata com as palavras. Ou então apetece-me praguejar com alguns aspetos da vida. E como vou tentando ser melhor pessoa todos os dias (mesmo naqueles em que não consigo e em que me sinto um bicho ruim capaz de bater em meio mundo) opto por não escrever palavras duras, a rasgar. Não ajuda ninguém. Talvez nem me ajude a mim própria. E reforça o meu lado mais lunar, de alguma têmpera fora de ordem, a roçar a fúria. A fúria é o meu pecado mortal. Enfureço-me muito facilmente. Facilmente demais para o bem da minha alma. Esta é a minha luta diária, acalmar os ímpetos e a busca pela serenidade e pela paz.

E mais uma vez comecei a desenvolver o assunto pelo lado contrário. Sou perita nisto! Na verdade, hoje é um dos dias em que tenho que escrever senão rebento. Em que tenho as palavras e os pensamentos a bailarem na minha cabeça. E esta dançaria toda incomoda-me. Não me consigo focalizar noutra coisa enquanto não despejar o que me vai na alma. Por vezes, a partir de uma conversa qualquer, fico a matutar num determinado pensamento e tenho que o estampar cá fora para voltar a ter sossego. Então, para sossegar, tenho que falar no fim do mundo. Ou melhor, conversar sobre aquela vontade que dá nas pessoas de irem para o fim do mundo. Se pudessem, iam para o fim do mundo. E isto é um bocadinho aborrecido, porque assim de caras, o mundo não tem um fim. Eu entendo o que isto quer dizer embora não tenha este tipo de ganas. Tenho outras. Às vezes apetece-me hibernar. Fechar-me e só me soltar quando o mundo à minha volta estiver diferente. E isto porque me custa a aceitar aquilo que não posso mudar. Tenho a tal costela muito resolutiva e não gosto de deixar coisas penduradas ou por resolver. Quando não é possível mudar o que não me pertence, o que não está na minha mão, apetecia enfiar-me dentro de um casulo e dormir em paz sem que nada me aborrecesse. Adormecia na esperança de que quando acordasse, para além de me ter transformado numa linda borboleta, também tudo cá por fora já estaria no seu devido lugar. Estas são assim as minhas vontades de fuga à realidade. Como sou também um bocado bicho-do-mato (muito pouca gente sabe disto…mas sou mesmo), é sempre mais feminino enfiar-me num casulo do que numa toca qualquer. Parece mais delicado, mais levezinho…mas continuando no que interessa: esta é a minha forma fantasiosa ou mágica, se assim se quiser dizer, de lidar com a realidade. Cada um de nós terá a suas próprias formas de o fazer.

No caso da minha estrelinha, apetecia-lhe ir brilhar para o fim do mundo. O que é francamente difícil porque, como já disse, o mundo não tem fim. É redondo como se sabe. Como são redondos os problemas da nossa vida. Se não os resolvemos, eles continuam a voltar, como se orbitassem à nossa volta. Como se sabe, as orbitas também são redondas, ou quase redondas, vá lá, no máximo, elípticas. E os problemas vão andando sempre à nossa volta, mais próximos ou mais distantes, dependendo do ponto orbital em que se está. Mas voltam sempre ao local onde doem, por vezes ganhando ainda mais peso, mais velocidade, mais tamanho. Podemos mandar os problemas dar um giro (ou vamos nós dar o tal giro deixando os problemas no sítio) mas quando este se completa, normalmente, as coisas não se resolveram por si só. Os problemas continuam os mesmos. Diz-me a experiência que até fermentaram. Cresceram. Tornaram-se maiores desde a última vez que os vimos. E quanto maiores são, mais custam a resolver e mais doem. São assim como uma nhanha daquela que se vai espalhando pelo meio ambiente onde se encontram. Podem ser assim como uma pequenina ferida que não se desinfeta ou que não se cuida e que se torna numa infeção generalizada.

Uma outra chatice que normalmente advém de se querer ir para o fim do mundo é o facto de nós próprios irmos para lá também. Podemos fugir (momentaneamente) dos nossos problemas mas não fugimos de nós próprios. O que nos mói, continua a moer. E o que nos dói continua a doer. É assim, mal comparado, como uma paz pobre. Empurra-se com a barriga e faz-se de conta que os problemas ficaram a muitos quilómetros de distância. Pode aliviar, de facto. Mas não deixa de estar tudo cá dentro, na mesma. E também não deixa de estar tudo onde se deixou antes de se abalar para o fim do mundo. E sofre-se. E existe uma linha ténue que separa a liberdade da solidão. É preciso ter-se sabedoria para que aquilo que hoje é liberdade não se transforme amanhã em solidão, daquela brava. Não há bela sem senão. E uma fuga nunca é uma solução. Pode ser uma resolução disfarçada. E tudo o que se disfarça, tarde ou cedo se destapa. É assim. Tenho cá para mim que até deve ser uma das tais leis do universo. A verdade vem sempre ao de cima, quer se queira, quer não se queira, tarde ou cedo. Também não deixa de ser verdade que de vez em quando é preciso distanciarmo-nos dos problemas para os podermos ver em toda a sua amplitude. Não é no meio da confusão que se vêem prismas. É preciso alguma distância para se serenar e para se encontrarem as melhores soluções. As que dão paz interior são sempre as melhores. Mesmo que pareçam esquisitas aos olhos dos outros. A distância com que nos afastamos dos problemas também tem que ter um meio-termo. Se nos distanciamos demais, os problemas podem aparentar ser um pontinho pequenino lá no horizonte, quando, na verdade, podem ter a altura do Kilimanjaro. A distância tem que ser equilibrada. E o equilíbrio é muito útil em todas as resoluções de vida. 

A minha estrela é bonita a brilhar em qualquer lado. Também no fim do mundo, se conseguir descobrir onde isso fica, será uma estrelinha maravilhosa. Triste mas maravilhosa. Maravilhosa de essência porque isso é indestrutível. Contra a tristeza é que não há nada a fazer lá para os lados do fim do mundo. Ouvi dizer que por lá, a tristeza ainda tem umas garras mais fortes que se cravam no coração das estrelas. É preciso ser-se blindado para que isso não aconteça. E se uma estrela for blindada não é uma estrela. Ou eu tenho estado muito enganada e já não entendo nada de nada do coração das pessoas, ou das estrelas, como se quiser.

Talvez a minha estrelinha não saiba que tudo na vida tem o tal equilíbrio ou a tal balança. Que ganhar e perder são os dois lados da mesma moeda. Quando nos queremos livrar daquilo que nos magoa, de qualquer maneira ou fugindo, estamos a deitar uma data de bebés fora com a água do banho. A água já não nos serve mas os bebés são preciosos. Quando vamos para o fim do mundo, não levamos o que nos magoa mas também não levamos o que nos faz bem nem o que nos dá alegria. Fugimos dos papões mas também fugimos dos ursinhos de peluche. E deixamos que os papões sejam mais fortes e mais importantes que os ursinhos de peluche, que vão ficando cada vez mais pequeninos sem terem quem nanar. Ir para o fim do mundo tem destas coisas. Permitimos que o que é mau seja mais importante e forte do que o que é bom. Permitimos que os desamores sejam mais fortes que os amores. Deixamos cair bons bocadinhos de vida pelos degraus abaixo só para que os maus bocadinhos não subam pela escada acima. Talvez a minha estrelinha pense que no fim do mundo não existem degraus. É tudo direitinho. Mas não é. Porque o fim do mundo tem montes de tristezas que levamos connosco e tem uns buracos muito fundos, feitos do vazio que deixámos para trás. E mesmo sendo o fim do mundo, longe, longe, esses buracos vazios arranjam maneira de comunicar com os buracos vazios que ficaram nos peitos de quem perde estrelas. E o vazio, quando se encontra, multiplica-se.

Aprender a fazer com que aquilo que nos faz bem seja mais importante e mais forte do que aquilo que nos faz mal não é para qualquer um nem é assim tão fácil. Tem que se treinar muito, todos os dias. Tem que se ser obstinado. Tem que se ser peitudo para a vida. Tem que se ter muita coragem. A coragem de enfrentarmos o que está dentro de nós, de forma nua e crua. Coragem para enfrentar o que está à nossa volta. Coragem para pedir ajuda, se for necessário. Não é fácil baixarmos a guarda para olharmos para além da nossa carapaça. É preciso coragem para nos permitirmos ser frágeis nem que seja só por um bocadinho. É preciso termos muita, muita força para sacudirmos dos nossos ombros o que tanto nos carrega e nos faz vergar a alma. Esta supremacia do bem e do amor parece ser tão difícil embora seja tão óbvia. Tento que assim seja todos os dias. Nem sempre consigo mas esforço-me. E não sou uma estrelinha brilhante já com estas coisas enfiadas no meu DNA. Conheço uma estrela que tem todo o potencial. Já veio assim. É só querer que assim seja e deixar que a sua essência conduza a sua luz. E o fim do mundo deixa de ter qualquer piada.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Homens: bichos incompreensíveis

Uma querida amiga pediu-me para escrever sobre os homens. Ela anda atravessada com eles. Eu também. Faz de conta que se juntou a fome com a vontade de comer. Ainda pensei não escrever sobre o tema pois como tenho estado numa lua de "descasca pessegueiro", poderei desatar o saco e ser injusta. É que quando me dá este tipo de macaca é melhor esperar que passe. Mas enfim...como sou uma senhora e gosto de pensar que já vou conseguindo controlar a tempera, aqui vai disto. Principalmente porque a minha tão querida amiga me pediu. Normalmente costumo dar o titulo aos textos depois de os ter escrito na integra. Este não será exceção. No entanto, apetece-me escrever sobre as incoerências, as dessincronias e sobre mais uma data de coisas que não compreendo no bicho homem. Costumo conseguir compreender bem as pessoas. Esforço-me por ver as coisas pelos prismas que os outros utilizam para lidarem com o mundo. Procuro sair das minhas referências e pontos de vista para poder entender as referências dos outros. Desta forma conseguimos ser mais justos com as outras pessoas. E adoro pessoas. Mas nesta altura do campeonato, não entendo os homens. Se calhar é porque eles não são pessoas! Talvez seja esta a grande descoberta do século! Os homens, ao contrário do que se pensava, não são pessoas! Só podem ser extra terrestres a fazerem de conta que são pessoas. E são extra terrestres tão evoluídos que já deram a volta à rosca da tecnologia de ponta e voltaram aos pontos de partida originais. Simples, simples. Funcionam em compasso binário, em 1 e 0, em corrente alternada e a preto e branco. De tão simples e óbvio, tornam-se difíceis de entender. São muitíssimo focados (normalmente no seu próprio umbigo) e só vêem o que está em perfeita linha reta com os olhos. Têm uma espécie de cegueira lateral, periférica e seletiva. Nem no frigorífico conseguem encontrar o que está nas partes de trás das prateleiras. Ou as coisas saltam das prateleiras e lhes dão umas dentadas ou não as encontram. É assim o bicho homem. Na esmagadora maioria das vezes, incompreensível. Posso dar uma explicação um bocadinho mais antropológica e relembrar que são seres racionais há muito pouco tempo na sua história evolutiva. O bicho homem ainda está completamente programado para a caça, para a procura de alimento, para a proliferação da espécie e para a defesa do seu clã. Estas marcas genéticas ainda fazem muita mossa numa época de racionalidade e consciência. Parece-me que caçar talvez seja a atividade fundamental do lado mais animal do homem. Daí que sejam tão focados. Na sua própria sobrevivência e na sobrevivência da espécie. Um belo bife no prato ou uma mulher bonita na cama, provêm da mesma origem: da caça. Isto não foi dito de uma forma muito elegante. Mas a elegância também não é para aqui chamada. Os homens são assim e não vale a pena dourar a pílula. São o que são. E para mim, mulher, tantas vezes vezes incompreensíveis. Não entendo como funcionam. Não entendo o que querem. Há dias em que não percebo nada de nada. Ou então, o que percebo é de uma simplicidade tão grande que nem acredito no que estou a ver. Há uma coisa que sei: os homens podem ser comparados aos carros. Mais ou menos sofisticados, funcionam todos sobre o mesmo princípio. Só é necessário ter-se unhas para a condução. E não vale a pena querer transformar um desportivo num carro familiar nem um todo terreno numa limusine. Não dá. Muito menos vale a pena comprar um fiat uno a pensar que se vai transformar num ferrari. Cada carro é o que é e cada homem também. Se nos convencermos disto, é mais fácil a gestão intra espécie.

Eles também não têm a culpa toda. Para além da força da genética que não controlam, são educados para serem fortes a todo o custo. Têm que ser à prova de bala. Não podem chorar, não devem demonstrar sentimentos. O coração é um pedaço de músculo que só serve para bombear o sangue e não lhe podem dar mais nenhuma funcionalidade. Só serve para ir batendo. E têm um medo do coração que se pelam. Gajo que é gajo trata logo de arranjar uns botões ou uns interruptores para desligarem o coração das suas outras funcionalidades. Emoções é para maricas. Ninguém lhes ensinou esta linguagem mais emocional, mais carinhosa, mais doce, mais vinda do coração e da alma. Por vezes saltam-lhes cubos de açúcar pelos olhos mas são incapazes de dizer uma palavra doce. Que bichos esquisitos! Parece que são frios de neve. Sem sentimentos. Muralhas invioláveis. À primeira vista é o que parecem. E são normalmente incapazes de se colocarem no lugar dos outros. Parece-me que o lugar deles já é muito difícil de entender. Também não deve ser fácil ser homem. Essa coisa de ser forte o tempo todo deve dar uma trabalheira...e deve consumir toda a energia disponível...por isso é que os desculpo. Os homens são, por vezes, crianças grandes. Assustadas com medo de o confessarem. Incapazes de lidar com sentimentos. Com imensa vergonha de falar sobre eles. E mais vale fugir do que enfrentar o coração. E só conseguem pensar numa coisa de cada vez. Se estão a pensar sobre o que lhes dói, são incapazes de pensar no que dói aos outros. Fecham-se sobre si próprios. Mudam de esquina ou de país. Os homens, que são simples, só são elaborados a fugir. São peritos em fugas para a frente, para trás ou para qualquer outro lado. Mais vale rabujar o touro do que fazer uma pega de frente. Lá na sua genética da caça, a defesa também é muito importante. Se não se consegue matar o bicho de forma limpa e sem grandes gastos de energia, mais vale fugir. O homem foge muito. Principalmente de si próprio e dos seus sentimentos. E estas fugas devem dar muito sofrimento, embora não sejam capazes de o admitir. 

Há coisas que me intrigam...se os homens são tão simples - porque o são - porque não são mais frontais? Quando querem terminar uma relação, porque não o expressam com simplicidade e frontalidade? Dizem que precisam de um tempo...ou que precisam pensar na vida...são estas incoerências que me custam a entrar na moleirinha. Não assumem as suas vontades com nobreza. Não entendem que a verdade dura é sempre mais digna do que a mentira doce. Na verdade, os homens são um bocadinho mentirosos e sabem adoçar a linguagem quando estão a mentir. A sua defesa pessoal acima de tudo. São capazes de passarem por cima dos sentimentos dos outros como os cilindros passam por cima do alcatrão. E, não maior parte das vezes, nem sabem que estão a cilindrar. Não pensam que magoam os outros. Acho que os homens já desistiram de pensar. Não pensam. Por isso é que não são pessoas. As pessoas pensam que podem magoar os outros com as suas manobras. E tentam evitar que isso aconteça. 

Uma outra coisa que me intriga é que são capazes de resolver uma data de problemas do mundo, são heróis a salvar vidas, a salvar a criação, a descobrir curas e a combater pela justiça e desorganizam-se com uma dor de barriga ou com uma unha encravada. Os homens funcionam, de facto, a preto e branco. São a muralha da China e, em simultâneo, são uns mariquinhas pé-de-salsa. Conseguem manobrar o maior e mais potente telescópio do mundo e não são capazes de nos olhar olho no olho e dizerem exatamente o que pensam. O homem, se não for extra terrestre, é, no mínimo, um dos mistérios da natureza. São capazes de estacionar um camião de olhos fechados e são incapazes de arrumar as coisinhas no seu próprio coração. São capazes de atravessar um oceano a nado e são incapazes de dar uma braçada ao encontro da sua própria alma. 

Os homens são capazes de saber as medidas exatas do nosso corpo mas não sabem o tamanho do nosso coração. Nem sei se sabem onde fica...fazem muitas vezes lembrar-me as legiões de soldados romanos. Muito estratégicos na sua forma primitiva de avassalar o território dos outros: "a conquista é tudo, a posse é nada". São altamente inseguros e fazem o que está ao seu alcance para conquistarem a dama que no momento lhes interessa. Depois de conquistada, ficam seguros da vida e o esforço de manutenção é paupérrimo. Pelo menos os romanos sempre desenvolviam os locais por onde passavam e criaram um império. Os homens são mais de criar haréns...e nunca estão satisfeitos...como é que se compreende isto? A única explicação que encontro é que não vale a pena socializar bichos do mato. E os homens são bichos do mato. E a genética tem muita, muita força. O que lhes sobe ao subconsciente é a sobrevivência da espécie, especialmente à custa do seu próprio material genético. Um dos seus objetivos de vida (embora não o tenham assim tão acessível à consciência) é espalhar os seus próprios cromossomas por todo o lado. Serem os melhores nesse aspeto. Por isso são tão competitivos e exibicionistas. Faz parte da sua própria natureza. Não gostam de perder nem aos feijões. Estas coisas são apenas camuflagens de quem quer ser o melhor entre pares para ter maior poder de conquista e, dessa forma, espalhar cromossomas como quem espalha grãozinhos de areia ao vento. Estão a ver como os homens são funcionam todos sobre o mesmo principio simples? Convém não nos esquecermos destes aspectos estruturantes das suas formas de lidar com o mundo e, principalmente com as mulheres. Assim já sabemos ao que vamos. Não nos irritamos tanto...

Também deve ser porque não os compreendemos que lhes achamos tanta graça. São poços sem fundo e cartolas de ilusionistas. Nunca se sabe o que guardam nas profundezas nem que coelho vai saltar. Deve ser esta imprevisibilidade que os torna atraentes. Broncos, duros e insensíveis mas atraentes. Interessantes. A culpa deve ser da física, a tal ciência que diz que os opostos se atraem. Os homens devem ser do pólo norte e as mulheres do pólo sul. Uns são companheiros dos ursos polares e outro dos pinguins. Nada a ver. Mas no meio destas antagonias todas, quando dois pólos se encontram e resolvem aceitar-se e entender-se com as diferenças que têm, é uma maravilha. Até o Céu entra em festa. Os arcos-íris vêm daí. É o fogo de artifício que o Céu envia quando comemora um encontro entre bichos que não se topam. Quando o amor é mais forte que as diferenças. Quando o amor vence tudo o que lhe aparece pela frente, é feriado festivo no Céu. E nos feriados festivos há fogo de artificio e os arco-íris aparecem. 

(Não e não. Vou resistir à tentação de explicar porque é que os arco-íris são tão raros...).

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A parvoíce de verão

Resolvi renovar a imagem deste blog. Os meus mundos necessitam de ser dinâmicos. Diz-se que as aquarianas são assim. Detestam rotinas e mais do mesmo. Assim, vou alterando o que posso alterar. Com tantas cores que a vida tem, não é necessário andar-se sempre com os mesmos tons. Por outro lado, quando não se consegue mudar questões estruturais da nossa vida (embora nos apeteça) vamos mudando o que podemos mudar, o que está ao nosso alcance. 

Resolvi então arejar um dos meus mundos mais queridos, o da escrita. Como sou eu própria, mantenho uma certa constância em termos cromáticos e de forma. Há coisas que aqui, tal como na vida, não abdico. São muito próprias, muito minhas. De resto, adoro experimentar tudo o que é diferente de mim. O que é meu eu já conheço. Interessa-me experimentar tudo o que é novo. Deve ser mesmo por ser aquariana de signo com ascendente em aquário. Muito aquário por metro quadrado! Não me safo do exotismo deste arquétipo. Falo disto como se percebesse alguma coisa deste assunto: não percebo nada. Apenas vou lendo umas coisas, satisfazendo a minha curiosidade. Parece que a curiosidade também é uma característica marcante da malta que nasce sob a influência deste signo. Enfim...e para me desviar da conversa também estou cá eu...

Estava a conversar sobre mudanças e sobre renovações. A maior parte das pessoas faz muitas destas limpezas e mudanças com a entrada de um novo ano. Como sou um bocadinho ao contrário, os meus arejamentos acontecem muito após as férias de verão. Em primeiro lugar porque adoro o verão. A sua simplicidade e o bem estar que proporciona. O verão deve ser masculino. Rege-se por princípios simples, não complica e as coisas são como são. Sim ou não. As hormonas do verão não influenciam o seu estado de espírito. Quando se chateia, chateia-se e toda a gente dá por isso. O verão não amua, não muda de cara várias vezes ao dia. Por outro lado, é teimoso e, quando ferra, vai até às ultimas consequências. Quando é para desaparecer, desaparece sem que ninguém perceba porquê. Sem explicações. E os veraneantes ficam à toa sem saber o que fazer nem como lidar com os desaparecimentos pouco previstos pelos institutos de meteorologia. Não há qualquer espécie de dúvida que o verão é gajo. Com as suas qualidades e com os seus defeitos. Corta a direito sem pensar se magoa ou não as pessoas que estão no seu caminho. Por vezes, o verão também só faz de conta que é corajoso. Não é, falta-lhe a coragem para mudar o que tem que ser mudado. Faltam-lhe palavras, cheiros e sonoridades para dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. É o que é. O verão é um gajo que funciona a preto e branco, de acordo com a sua estrutura cromática. De acordo com o seu umbigo. Mas eu gosto do verão na mesma. Tem duas componentes que me são fundamentais à vida e ao meu bem estar geral: o sol radioso e o mar calmo. É a altura do ano em que o mar nos deixa partilhar todo a sua essência. E eu não sei viver sem o mar. É a altura do ano em que o sol dá umas varridelas nas nossas estruturas mais bafientas. Por isso adoro o verão. Mesmo quando tem as telhas de gajo, aquelas que eu não compreendo. Mas mesmo o que eu não compreendo não deixa de ser atraente. Ou, no mínimo, desafiante. Se o sol trata do nosso bafio, o mar acaba por nos purificar. Eu sou outra depois de uns dias de sol e de mar. Mas sou outra um bocadinho melhor. Refrescada. Principalmente nos meus propósitos. Tenho um conjunto de coisas que quero fazer. Posso não conseguir virar tudo o que me apetece. Mas consigo fazer pequenas coisinhas (novas) ou reforçar algumas que já faço e que me dão muita alegria. Eu começo sempre um ano novo depois do verão. Esta época é a minha época para sacudir o pó. Para reforçar o que é bom e para espantar o que me faz mal. Vou tentar que este pós ferias seja um tempo para sarar algumas feridas abertas que se instalaram ao longo do ano. 

Tenho um rasgão aberto no coração que tem pingado muito sangue. Vou ter que estancar isto, custe o que custar. É que sem coração também não sou capaz de viver. E procuro deixar que o tempo faça os seus milagres. Que ajude a cicatrizar antes que se morra da hemorragia. O tempo cura tudo. É verdade. Mas não sei qual é o meu limite para ir sangrando pelos cantos até que o tempo se digne a fazer que tem que ser feito. Morrer-se também é uma forma de cura. Fica-se curado de uma vez. Não gostaria que o meu coração morresse para a vida. O coração é o que eu tenho de melhor. É a minha peça mais preciosa. É a que mais estimo. É onde tenho todos os tesouros que Deus me deu. É onde se encontra a minha essência e toda a minha força. Sansão tinha a sua força no cabelo. Eu tenho no coração. Não sei explicar, mas é assim. Sendo uma pessoa forte de estrutura, sei que é no meu coração que esta força está instalada e que se multiplica. Por isso tenho medo de abafar e de oprimir o meu coração. De o ter doente, cansado, com feridas. Por vezes todo partidinho...tenho medo que não consiga recuperar de umas vezes para as outras. Tenho medo de perder a vontade de amar com toda a força, com toda a confiança. Não gosto de coisas pelo meio, nem cheias de condições. Gosto de tudo intenso. Tenho medo de começar a ser mais contida, mais desconfiada, menos espontânea e menos autentica. Tenho medo de perder autenticidade. Às vezes perde-se pureza quando nos defendemos. Quando não abrimos o coração à vontade. Colocamos pezinhos de lã. Abusamos da prudência. Abrimos muito os olhos e fechamos o coração. Não me apetece nada ficar assim, de olhos escancarados. Apetece-me cada vez mais ser eu própria, como a água que rola montanha abaixo em vez de ser um lago sereno enfiado na cratera onde desaguou. Apesar de ser esquisita e diferente, cada vez mais bichinho do mato e cada vez menos entendida, quero ser sempre eu própria. Mas, de vez em quando, apetece-me tanto a paz e o sossego que tenho medo de mim. De trancar o que tenho de melhor só para que não doa tanto. As dores e as hemorragias exaustam. Isto é o lado B de um coração grande, intenso, indomável e com vontade própria. Quando maior é maior a superfície que pode ser atingida. Tudo isto em extensão e em profundidade. Tem sido uma canseira. Sinto-me muito cansada. A minha sorte tem sido o verão. A energia do sol. O envolvimento do mar. Estas duas forças têm-me salvado o coração muitas vezes. Quando estou à beirinha de perder a bateria toda, lá consigo encontrar a energia que me permite levantar a cabeça e seguir peituda para a vida. Aproveitá-la, espremê-la. Cada gota de vida que se absorve faz evoluir a nossa alma. E, no fim do dia, é isso que verdadeiramente interessa. O processo é que por vezes é bastante tortuoso (cada vez gosto menos de processos, tenho a dizer).

Mas gosto do verão por todas as razões e mais alguma. Porque posso viver a simplicidade que me agrada nas coisas. Com pouca tralha atrás. Sem necessidade de abafos nem de complementos. Podemos escolher andar como nos apetece, de chinelinha de dedo. Podemos enfiar qualquer coisa leve que está bem. Penso que as pessoas são mais felizes no verão. Retomam à sua simplicidade original. Soltam-se mais. Retiram mais prazer da vida. Apreciam melhor a natureza. Diria que no verão faz um calor que dificulta usarem-se máscaras e capas. E tudo o que promove a transparência é adorável. O verão é adorável. Talvez seja porque tem uma energia masculina que complementa a minha feminilidade. O verão apazigua-me. Acalma-me. Permite-me andar mais na rua. Observar melhor, sentir melhor, ouvir melhor e cheirar melhor. O verão apura-me os sentidos todos. Parece que me apura igualmente os sentidos espirituais. Parece-me mais fácil o contacto com este outro meu mundo. No verão está tudo muito mais apuradinho. Talvez porque a energia é capaz de fluir muito mais facilmente. Os canais estão mais abertos, mais disponíveis. Deve ser porque cada um de nós também está muito mais disponível para a vida. Comunga-se mais com a natureza. Estamos mais recetivos ao ambiente. Parece que se ouve mais musica, dança-se mais, passeia-se mais, absorve-se mais vida. E quando se absorve a vida, o mundo espiritual também se amplia. E quando o mundo espiritual se amplia, deve haver festa da rija lá no Céu. A mim parece-me que o Céu também festeja tudo o que é bonito. Tudo o que ilumina as nossas almas. E a mim, apesar dos pesares, o verão ilumina-me a alma. 

Embora saiba que todas as estações do ano têm o seu encanto e a sua utilidade, seria capaz de viver sempre no verão. O verão tem uma essência de liberdade que me encanta. A liberdade é encantadora em si própria. E a liberdade também mora no coração de cada um de nós. Somos almas livres apesar de tudo. Apesar dos grilhões dos sistemas. E não existem sistemas sem grilhões. Portanto, ser-se livre é um estado interior, mais ou menos pleno. Eu sou uma pessoa muito livre. Muito dona de mim própria. Interessam-me imenso as outras pessoas. Adoro pessoas, adoro o mundo e a vida. Mas não gosto que mexam na minha liberdade enquanto ser consciente de mim própria, com capacidade de escolha. Deus deu-me esse valor, à nascença. Deus fez-nos livres. Não são as outras pessoas que nos vão tirar o que Deus tão amorosamente nos deu. A minha liberdade é muito minha. E faz-me muito feliz. Não sei viver quando escolhem por mim. Por outro lado, não sei prender ninguém. Não sei pedir nada do que deva ser oferecido. Não sei atar nós nem colocar cadeados. Existem uma enormidade de coisas que as pessoas fazem umas às outras que eu não sei fazer. Nem quero aprender como se fazem. Quero poder ser. Simplesmente ser. E vou desejando que o meu ser seja despoletador de bons sentimentos por parte das outras pessoas. Em liberdade. Detesto cobranças, obrigações e amarrações. E adoro espontaneidade, autenticidade, ofertas e partilhas. Por isso vivo um bocadinho à parte. Sendo pouco compreendida. Sendo um bocado parva. Miguel Esteves Cardoso, que eu adoro, diz que tem que se ser um bocado parvo para se ser feliz. Pois como o meu verdadeiro objetivo é ser feliz, devo ser, por inerência, também um bocado parva. 

O tempo (que também é muito dono de si próprio e muito livre, e que não pode ser forçado) dá-nos um presente fantástico (se tivermos paciência para esperar): a maturidade de já não nos importarmos com determinadas coisas. Nesta altura da minha vida, já não me importo de ser parva. Ou que os outros me considerem parva. Já não quero saber. Já só quero ser eu. Simplesmente eu e livremente eu. Apesar de tudo isto dar muito trabalho. Ser-se o que se é, é muito trabalhoso. Dói. Faz partir o tal coração que está fragilizado. É preciso tomar doses cavalares de sabedoria e de paciência. Dá aso a muitas lágrimas. E as lágrimas causam rugas. Não é bonito. E para que conste, o mar é tão meu amigo que me contém as lágrimas. Deixa-me chorar e não se importa de ficar um bocadinho mais salgado à conta das minhas lágrimas. Deixa-me chorar só para ele. Ninguém mais precisa de ver. Entende-as. Está cheio delas. No verão, também posso chorar melhor. Posso entrar pelo mar adentro e chorar o que me apetecer. De forma simples e livre. Sem precisar de me justificar. Só porque sim. Só porque sou um bocado parva.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Rosa de Jericó

Se eu fosse uma pessoa delicada, hoje diria que me sinto como uma flor murcha a quem vão caindo as petalazinhas, uma atrás da outra. Mas como não sou delicada, não sei bem que comparação hei-de fazer. Mas a ideia é esta. Sinto-me a ficar murchinha. Vou murchando de dia para dia. Quando estou numa daquelas fases da vida um bocadinho difíceis, a saborear a impotência, a gerir a perseverança e o cansaço, o melhor que consigo fazer é andar um bocadinho murcha. Eu sei que tudo o que nos acontece tem um propósito e o que está no nosso caminho é sempre provido de sentido e de significância. Eu sei disto tudo. E esforço-me imenso para ser grata ao Céu por todas as experiências que me proporciona. E sei também que o Universo conspira a nosso favor. Mas a gestão que se tem que fazer entre o saber e o sentir é difícil. As experiências e as vivências trazem as suas chamuscadelas. Eu estou tão chamuscadinha que já nem preciso de ir à praia para me bronzear! Na verdade, é o coração que fica com queimaduras do 1º grau. E, se eu fosse a tal florinha, as pétalas cairiam do excesso de calor que apanham. A sorte é que a minha flora é mais do género rosa de Jericó, oriunda dos desertos e que em tempos de escassez, seca, sem perder a vida. Fica sequinha, sequinha parecendo palha transformada num novelinho duro e mirrado. Em tempos de abundância, quando a água chega, abre-se e torna-se verdinha, verdinha e esplendorosa. Vive lindamente totalmente emersa em água. E, tal como eu, não é uma planta nada delicada, é até bastante robusta e resistente e não tem pétalas, como seria de esperar. Por vezes sinto-me como esta planta. Não consigo é fazer-me de morta como esta plantinha é capaz de fazer. A disfarçar à espera que passe o tempo de escassez. Esta parte eu não sei fazer. Vou secando, secando, sem nunca poder ficar quietinha no meu canto em paz e em sossego, a funcionar apenas com os mínimos olímpicos. Mas esta planta de que vos falo diz-se que tem propriedades mágicas. Diz-se que limpa os ambientes de más energias. Onde ela está, o ambiente fica purificado. A mim parece-me ser uma característica bonita. Também gostaria de levar leveza aos sítios por onde vou e de aliviar com quem estou. Poder tornar os ambientes e as outras pessoas leves, limpas e puras deve ser uma virtude estupenda! Diz-se que a rosa de Jericó tem esse condão. Eu cá gostava de o ter. Pode ser que isto passe por osmose…pois é a única flor que me vejo a personificar. A esmagadora maioria das outras flores são delicadinhas demais para eu poder ter qualquer pretensão em traçar semelhanças. Nunca conseguiria encontrar similitudes entre mim e outra rosa qualquer. Com esta, a tal de Jericó, resistente que eu sei lá, consigo encontrar alguns paralelismos. Gostava era também de ter o seu sossego. É uma planta muito sossegadinha. Está sempre metida na sua vidinha sem depender de nada nem de ninguém. Se lhe derem muita água, abre os bracitos e as folhinhas todas e estica-se até mais não! Cresce, desenvolve-se, ultrapassa-se! Se lhe faltar a água e o calor apertar, fecha-se sobre si própria, transforma-se num rolinho cheio de pauzinhos secos e duros e sobrevive com o que tem. E nunca se queixa! Aprendeu a aceitar as circunstâncias da vida, ao seu redor, sem se queixar, sem exigências nem reivindicações. Por isso é que esta planta é admirável! Sabe viver! E eu gostaria de ser como esta rosa tão especial. Gostaria de saber viver em paz e em alegria com todas as circunstâncias com que a vida se me apresenta. Gostaria de me saber adaptar assim tão bem ao ambiente que me rodeia. Gostaria de ser capaz de me transformar sempre que assim for necessário. Gostaria de aceitar o facto de não poder transformar o ambiente à minha volta. Aceitar sem resignação, claro está. Aceitar verdadeiramente implica que não haja sofrimento. A resignação implica sofrimento. E é uma grande chatice. Aceitar as outras pessoas tal como elas são, com as suas telhas e amoques, também deveria ser um bocadinho mais fácil e sem sofrimento. Por vezes ainda me resigno com a forma de ser de cada um em vez de aceitar, sem qualquer espécie de mal estar. Isso é que é amar bem! Aceitar os outros tal e qual como eles são. Mas existem uns outros que são especiais de corrida nesta coisa das telhas. E esses ainda são mais difíceis de entender, de aceitar sem lágrimas e lamentações. Tenho tido tantas provações deste género, na vida, que qualquer dia já não tenho nem uma peninha da alma para torrar nalguma raio de sol mais quentinho que apareça por aí! Esta coisa de ter pena de mim própria também não condiz nada comigo. Aborrece-me. Eu, que gosto tanto da vida e de pessoas! E que tenho sempre um prisma positivo para ver as montras. Sou otimista e esperançosa, graças a Deus. Tenho é medo que o cansaço me apanhe. Tenho andado a correr uma maratona contra o cansaço. Desde há algum tempo. E uma maratona cansa muito, não só pelo tempo tempo que leva como pela distância que tem que ser percorrida. Uma maratona, para quem é mais de corridas em velocidade, é um cabo dos trabalhos...e tudo isto para aprender, para evoluir e para desenvolver a minha alma. Está certo. Mas lá que custa, custa!

terça-feira, 19 de julho de 2016

As linhas que nos prendem

As incoerências são como linhas assimétricas que supostamente devem manter um qualquer equilíbrio. Quando se é o 8 e o 80 em simultâneo, não há simetria nem equilíbrio que consiga resistir. Sinto-me presa por linhas que não compreendo. São linhas transparentes, de confiança. A confiança é o material mais resistente que existe para se fazerem linhas que ligam as pessoas. Dizendo melhor, que ligam os corações das pessoas. Confiar no coração de uma pessoa é a maior forma de confiança que existe. Por vezes não se confia nas cabeças nem nas palavras mas confia-se no coração. É uma bênção e uma maldição, esta espécie de confiança, feita de linhas transparentes. As tais linhas muito, muito fortes. São linhas que não nos deixam desistir, não nos deixam largar. Prendem e prendem mesmo quando achamos que já não aguentamos mais. De assimétricas que são, estas linhas, são incoerentes. Não entendemos porque repuxam e arrepanham de um lado e ficam laças de outro. Num lado apertam muito e no outro dão toda a largueza. E não se entendem. E tudo o que não se entende deixa margem para a imaginação e para a racionalização. Pode até deixar margem para o medo. E tudo o que dá medo, dói. E tudo o que não se compreende é passível de etiquetagem e categorização. E quando se encontram prateleiras para as coisas, elas deixam de ser elas próprias e passam a fazer parte das nossas referências. Julgamos o que não compreendemos para podermos encontrar algum sentido. E os julgamentos são sempre perigosos. Mas são formas de nos defendermos. Se não vemos as linhas que nos prendem, temos insegurança, temos incerteza, estamos no limbo, sem chão e sem rede. Aprender a flutuar, sem rede, sem medo de cair, sem medo de se magoar, é um processo bastante difícil. E flutuar nas relações, com a leveza necessária para haver paz de espírito, ainda é mais difícil. E flutuar com a (in)segurança de se estar seguro por linhas transparentes que não se vêem, é um ato de fé. Confiar no coração de alguém que não é coerente com o seu próprio coração é um enorme ato de fé. 

Eu sou uma pessoa cheia de fé. Graças a Deus. Sou otimista, tenho esperança para dar e vender. E normalmente não tenho medo nenhum de linhas transparentes nem de qualquer espécie de linhas que unem os corações. Nem medo de corações nem de pessoas. Mas como tantas vezes costumo dizer, tenho medo de mim própria. Tenho também medo da minha cabeça, da minha impaciência e da minha natureza resolutiva. Tenho medo de resolver acabar com as linhas transparentes. Porque apesar de serem as mais fortes que conheço, existe no mercado um dissolvente que as despacha num instante. E eu tenho medo de deitar a mão a esse dissolvente que, numa hora menos boa, se pode tornar muito apetecível. Por tudo isto e muito mais, tenho medo de dar espaço à minha impulsividade e de mandar tudo para o espaço. Pelo menos tudo o que magoa. Tudo o que não me preenche e tudo o não me sabe segurar. Parece que só o amor não basta. Acredito na força do amor acima de tudo. Mas parece que não basta, não chega. E isto porque está dependente do livre arbítrio de cada um. Depende de coisas maravilhosas como a sabedoria e como a coragem. São virtudes maravilhosas mas que nem sempre conseguimos mobilizar. E sem culpa de ninguém. Este palavreado nem é um palavreado a roçar a culpa. Nem a minha nem a dos outros. A culpa não é para aqui chamada. Cada um faz o melhor que é capaz de fazer com aquilo que tem. Com os recursos de que dispõe. Cada um precisa de aprender a reforçar as linhas que o prendem às outras pessoas. Precisa de aprender a dar cor a essas linhas transparentes para que o outro as veja. Para que o outro se sinta efetivamente seguro, cuidado, amado, com rede e chão. Colorir linhas é um dos fatores mais importantes para reforçar uma relação. Ou até para a manter. Se eu pintar as linhas que seguram o coração do outro, o outro sabe que pode contar comigo. Sabe exatamente como me pode encontrar e o que pode encontrar. Principalmente se souber o significado das cores. Quando ambos querem tecer um linda rede colorida, que estabelece uma livre passagem, uma ponte, segura, entre um coração e o outro, um amaranhado de linhas coloridas que põem em comum o que de mais precioso cada um tem, a vida é linda! Mas isto de colocar em comum qualquer coisa parece que é sempre tirado a ferros!!! 

Que medo que as pessoas têm de amarem e de se deixarem amar. Não compreendo. Sei que é assim e que cada um faz o que pode com o que tem. Mas nem sempre consigo compreender tudo o que gostaria de compreender e, principalmente, de saber aceitar sem mágoa. É a velha história das aprendizagens e da empatia. De nos sabermos colocar no lugar do outro com as suas condições. Esta tal de empatia, por si só, é uma ciência muito mais complicada do que a física quântica. Tudo o que tem a ver com pessoas é muito mais complicado do que outra qualquer ciência ou campo do conhecimento. Por isso é que as pessoas são tão maravilhosas. Todos os seres aprendentes são maravilhosos e é isso que nós andamos cá a fazer: a aprender, a evoluir. De vez em quando dá-me o medo de não conseguir aprender tudo o que devia. É que é tanta coisa, tanta experiência, tanta forma diferente de ver o mundo que receio não ser capaz de abarcar tudo e de entender o porquê das coisas. Ou melhor, o porquê das pessoas. Entender os porquês das pessoas causa-me muito sofrimento. E, de vez em quando, sinto-me muito cansada e apetece-me cortar as linhas todas e ir descansar. E dizer: e tal se tentassem entender os meus porquês e as minhas incoerências? Hein? E que tal fazerem alguma coisinha para verem as coisas pelos meus olhos? E se nesses momentos desse liberdade à minha vontade, dava cabo das linhas todas. As que prendem e as que não prendem. Arrasava com tudo e ia-me embora. A sorte é que já sei contar até 100 de trás para a frente. E enquanto vou contando, vai-me passando a vontade, a tal que se aborrece de morte com sequências de números. É a minha sorte...e o meu coração consegue falar sempre mais alto do que o meu cansaço e a minha fartura. Rezo ao Pai para que que o meu coração nunca fique afónico. E para que eu nunca me esqueça de como se conta até 100. De trás para a frente e da frente para trás.