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sexta-feira, 28 de abril de 2017

O Planeta das Tolas

Apetece-me escrever sobre um planeta que fica numa outra dimensão qualquer. Deve ser o meu planeta de origem. Diferente deste onde vivo. Sinto-me tantas vezes uma ET que me parece que devo mesmo vir de outro planeta. Conheço mais gente assim (muito pouquinha, só uns exemplares raríssimos). Se calhar viemos numa fornada qualquer e, por engano, caímos de para-quedas nas nossas famílias. Esta é uma suposição que cada vez me faz mais sentido. É que explica muita coisa. E se este planeta se chamasse o Planeta das Tolas ainda mais coisas explicava. É assim que me sinto neste momento. Uma tola. E as tolas costumam ter um coração cheio de cicatrizes e uma cabeça cheia de interrogações. Não entendem muitos dos registos das outras pessoas. Não entendem as suas formas de relacionamento, de comportamento. Não entendem aquelas coisas de só se pensar no seu próprio umbigo sem se pensar nos umbigos dos outros. Não entendem as relações unívocas em que só se recebe e não se retribuí nada.

No Planeta das Tolas, as pessoas preocupam-se umas com as outras. Querem saber. Não pensam só em si próprias. O que falam é o que verdadeiramente pensam e não têm jeito nenhum para segundos sentidos nem para conversas veladas. Quando as Tolas gostam de alguém, não sacodem as pessoas, não entram em hibernação nem ficam em estado de refrigeração. São transparentes naquilo que sentem e naquilo que dizem. Quando deixam de gostar, vão à sua vida sem abandono, sem ferir, sem desculpas esfarrapadas. São honestas. As Tolas são sensíveis e transparentes. Por isso é que são de outro Planeta. Neste onde vivemos, são uns bichos esquisitos que quase ninguém compreende. A sorte é que o mundo não sabe que as Tolas são ET's. Se soubesse, fechava-as assim​ nalgum laboratório para estudo. Assim, aparentam ser apenas umas patetas ou tolinhas com a mania que o mundo é cor de rosa. As Tolas sabem que o mundo não é cor de rosa. Mas procuram fazer o melhor que sabem para que assim seja. As Tolas teimam em não querer estar centradas naquilo que os outros têm de pior. Procuram o que há de melhor. Procuram a luz em vez da escuridão. Gostam de simplicidade em vez de intrincados complexos. Neste mundo parece que ser-se simples ou gostar-se de simplicidade é ter-se mau gosto ou ter-se falta de inteligência. Quem é que consegue compreender isto? Nós, as Tolas, não conseguimos. Também não conseguimos entender porque é que as pessoas se relacionam tanto connosco por necessidade, colo, conforto e outras coisas boas que lhes damos sem exigir nada em troca. Apenas precisamos que cuidem e gostem um bocadinho de nós. De forma simples, sem cobranças, sem stresses. Mas pelos vistos, isto é muito difícil. É muito fácil gostar das Tolas assim pela superfície. Estão sempre disponíveis para ajudar e para cuidar dos outros. Sabem gerir o tempo e as focalizações de forma a que haja um bocadinho do dia em que conseguem sempre lembrar-se das pessoas que amam. Sabem que amor é a coisa mais importante do universo. Mas este conhecimento é muito desconhecido pelos não tolos e as Tolas não são compreendidas. E é difícil amá-las. Parece-me que é mesmo muito difícil acreditar que as Tolas são verdadeiramente como são. Sem cartadas na manga. Sem grandes mistérios. Têm muita força de carácter, muita força de alma mas não têm segundos sentidos nem se movem a interesses. São transparentes como a água se se tiver a disponibilidade para se olhar com olhos de ver. Mas esta disponibilidade é qualquer coisa em vias de extinção no mundo dos não tolos. É tudo muito rápido e muito imediato. Já ninguém quer saber, com calma, o que se está a passar. O que é que o outro pensa ou sente. Já ninguém se coloca verdadeiramente no lugar do outro. Essa é uma capacidade que só assiste às Tolas. De tal maneira que se rebentam todas só por compreender como é difícil a vida dos outros. E passam a vida a desculpar e a deixar passar as desconsiderações e descoordenações. Sabem que as linguagens são diferentes. Que as referências são diferentes e que os não tolos não têm culpa de serem tão espertos. A chatice é que as Tolas também não têm culpa nenhuma de serem como são e de terem vindo de outro planeta. Do Planeta das Tolas. Ou, pensando melhor, do Planeta das Tolas ao Quadrado.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Uma palavra muito feia

Procrastinar. Hoje vou escrever sobre esta arte de “(…) deixar para depois; fazer mais tarde, adiar, etc.”

Que palavra feia! Parece um palavrão daqueles bem cabeludos! Um verdadeiro palavrão, ao ser dito, normalmente causa alívio a quem o diz. De vez em quando sai-me um pela boca fora e faz-me um bem desgraçado. Baixa-me a pressão e deita-me água na fervura. Funciona assim como um calmante em modo de SOS. Agora esta palavra feia – procrastinar – tem exatamente o efeito contrário em quem a usa. Carrega a pressão, aumenta o stress, a ansiedade e o sofrimento. Também tem um significado muito impostor: parece que causa algum alívio momentâneo quando deixamos para depois qualquer coisa que nos chateia. Mas esse alívio é mesmo momentâneo. É como quem pára a ganhar balanço para depois se atirar contra a parede com muito mais força, fazendo muito mais estrago. Já entraremos por esta questão adentro. 

Hoje falei com alguém (muito importante e que mora no meu coração) que anda com esta atitude na baila. Se calhar até anda a tomar consciência das consequências de tomar “procrastina” todos os dias ao pequeno-almoço. Depois de uma noite mal dormida, a pensar na vida, toma-se uma boa dose deste remédio. E nesse dia, parece que o coração e a cabeça ficam um bocadinho mais aliviados. Mas, logo à noite, os fantasmas e os medos voltam. A tal da “procrastina” é um remédio atitudinal que só alivia momentaneamente e que tem uns efeitos secundários levados da breca. Deve ler-se a bula para verificar se vale a pena gastar-se disso lá em casa.

Parece-me que é uma decisão que se toma quando se anda muito ocupado a fazer-se coisas pouco importantes para não se ter tempo para fazer o que se deve ou para se resolver o que já deveria estar resolvido. Como alguém disse, há duas maneiras de não se ter problemas: ou se evitam ou se resolvem. Deixar para resolver um dia destes não parece ser a solução. De facto, procrastinar é apenas adiar as situações. E, na maioria das vezes, quando finalmente vamos tratar do assunto que andamos a adiar, já pagamos juros de mora. E a vida a cobrar juros costuma ser mais dura e implacável do que os bancos. Por vezes também inventamos estratégias de fuga, bem camufladas, só para não olharmos de frente para o que tem que ser feito. O curioso é que quando se adia algo, passamos a vida a pensar no assunto, com pesar, culpa e peso na consciência. Não fazemos nada, não decidimos nada, não fechamos processos mas gastamos um montão de energia a carregar o fardo. É que se o fardo existe, ele pesa-nos. E vai pesar enquanto não o descarregarmos e arrumarmos no sítio certo. Quanto mais tempo o carregarmos, mais nos vão doer as costas. Ficamos mais fracos e os fardos, tendencialmente, ficam mais pesados. Não vale a pena adiar o que tem que ser feito. Adiar só causa mais sofrimento a nós e aos outros. 

É verdade que as decisões tomadas por impulso, sob o efeito de uma grande raiva, de uma grande tristeza ou de uma exuberante alegria, também não são lá grandes decisões. Coisas importantes devem ser bem ponderadas e amadurecidas. As decisões que podem mudar o rumo da vida precisam de alguma marinada para se tomarem. Mas marinada a mais estraga o tempero. E os ingredientes. Nestas coisas deve haver sempre algum equilíbrio para que a vida possa fluir no sentido do nosso bem-estar e da nossa felicidade. A procrastinação pode ter uns pós de bruxaria que transforma coisas sem importância e simples, em questões maiores e que indispõe muito as outras pessoas. Complica aquilo que é simples e enrola aquilo que é a direito. A procrastinação faz até com que as pessoas, sem querer, percam a noção do valor da “palavra de honra”, do “prometo”, de “certeza absoluta” e do “está combinado”. Perdem credibilidade no que dizem tendo em conta o que fazem. E é uma pena porque não o fazem por mal… mas fazem francamente mal a si próprios e aos outros à sua volta. Estes são alguns dos efeitos colaterais de se tomar a tal dose de “procrastina” ao pequeno-almoço (ou a outra refeição qualquer). Um outro efeito que pode ter é o de se andar sempre a correr, a procurar cumprir o que já está fora de prazo. É que as tarefas vão-se amontoando, umas em cima das outras de forma mais ou menos caótica. Os tropeções acontecem, o planeamento deixa de fazer qualquer sentido e anda-se sempre no fio da navalha. Faz-se tudo em cima do joelho na ânsia de se tentar minorar o estrago. Isto no que diz respeito ao trabalho. Não se faz o melhor que se consegue. Faz-se o mais depressa que se consegue depois de se já ter gasto todo o tempo disponível com mil e uma outras coisas. E, lá no fundo, ficamos tristes com o nosso desempenho. Nós somos os nossos piores juízes. E culpa aproveita logo a oportunidade para nos invadir a alma. E a culpa é um sentimento horrível que não traz nenhum valor acrescentado. Só nos diminui. Mas isto é outra conversa que ficará para outra oportunidade. Agora estamos ainda a falar da sua irmã gémea, a procrastinação. (Não são gémeas verdadeiras, mas nasceram da mesma barriga e são irmãs na mesma. Normalmente passeiam juntas.)

No que diz respeito à esfera pessoal, esta menina mal comportada faz com que as pessoas passem pela vida em vez de a viverem como deve de ser. Custam a fazer opções e deixam-se estar mesmo que doa. Também nestas circunstâncias não se faz por mal. Mas faz-se muito mal. Sofre-se e, de tanto não se querer magoar os outros, acaba-se por magoá-los ainda mais. Porque os outros sabem, sentem e pensam. Porque os deixamos presos a nós mesmo quando já não há nada de bom que prenda. Porque nos deixamos estar apenas em faz de conta. Porque não vivemos nem deixamos viver. Procrastinamos ruturas porque dói romper. É verdade. Mas vale a pena pensar que mais vale doer tudo de uma vez do que doer às prestações, sangrando e rasgando a nossa carne e a carne do outro. O irrecuperável não se recupera. E é uma ferida aberta que nunca sara. A dor crónica e persistente rebenta com tudo o que de bom ainda pode fazer parte da equação. A dor e a raiva são como uma nuvem negra que apaga o que de bom existe. As ruturas no momento certo tendem a não deixar degradar as partes boas das coisas. Evitam dores maiores, efeitos colaterais de monta e preservam as partes bonitas. Adiar o que já não tem remédio só faz crescer as coisas más. E nunca se sabe o tamanho que uma coisa má pode atingir. Nunca se sabe. É imprevisível, por mais que se pense no assunto e por mais prisma que se descubra. Este é um exemplo de adiar a resolução de uma situação que causa dor. Também se pode fazer o contrário. Adiar a decisão de se puxar à nossa vida o que nos faz bem. O que nos deixa feliz. E enquanto decidimos e não decidimos, as oportunidades passam, as situações seguem com a corrente e as pessoas vão à sua vida. Também quando se adia o bom corre-se o risco de o perder. Já passou enquanto ficámos a pensar se sim ou se sopas. Ao contrário do que se pensa, é tão difícil decidir pelo bom como é difícil descartar o mau. 

Há um ditado popular que faz todo o sentido encaixar neste contexto: “prefiro o mal que conheço ao bem que não conheço”. Que tal? Profundo, hein? Pois é. Cai aqui que nem uma luva. E passo a explicar. Como tantas vezes tenho dito, tomamos ou deixamos de tomar decisões em função do medo. E às vezes preferimos ficar na nossa zona de conforto (mesmo que não nos conforte nada) do que dar um salto para algo de bom mas que é fora do nosso habitat, do nosso quadrado. O desconhecido costuma dar um medo danado. Na verdade, uma das razões pelas quais procrastinamos é porque temos medo. Medo de sofrer, medo de magoar os outros, medo da rejeição, medo de errar, medo de ser julgado, medo de ficar pequenino e indefeso. Medo de não ser capaz. Medo, medo, medo. E todos os medos são legítimos. Todas as pessoas têm medo. O medo faz parte de sermos humanos. Não podemos é deixar que o medo seja mais forte que o amor. O amor que devemos nutrir por nós próprios e pelos outros (todas as espécies de amor) deve ser mais forte do que os nossos medos. Este é um dos desafios da vida e um dos seus sentidos mais profundos. Utilizar o nosso tão sagrado livre-arbítrio em função do amor e do respeito por nós e pelos outros ao invés de o gastarmos alimentando os nossos medos.

Claro que também procrastinamos por razões mais simples e menos profundas, apenas baseadas nos princípios da chatice e do prazer. Adiamos o que nos chateia ou aborrece. E não encaixamos nas nossas cabeças duras que algures, mais tarde ou mais cedo, vamos ter que passar pelo aborrecimento que estamos a adiar. É mais fácil despachar primeiro o que nos aborrece. Fica despachado e sai-nos da ideia. E ficamos com mais tempo e mais disponibilidade para o que nos dá prazer. Se fazemos primeiro o que nos dá prazer, ficamos com o bichinho da chatice e moer-nos a alma e não conseguimos desfrutar verdadeiramente de um momento ou atividade que poderia ser tão boa. Há sempre uma nuvenzinha a tapar o sol.

Apesar de tudo, penso que cada pessoa é uma pessoa, com as suas especificidades e os seus momentos certos para ser capaz de fazer o que tem que ser feito. Eu sempre sofri do problema ao contrário. Eu tive que trabalhar o facto de ser tão resolutiva. De despachar e resolver num instante o que me cheirava que tinha que ser resolvido. A vida fez-me o favor de me ensinar a amadurecer as decisões. A ponderar as causas e os efeitos e a deixar que o tempo faça a sua magia. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Uns de nós têm que aprender umas coisas e outros o seu inverso. Mas é para isso que cá andamos, para aprender e enriquecer a alma. Para encontrar as peças do puzzle que nos faltam. Para aprender que, tal como para não procrastinar ou para não ser impulsivo é preciso trabalhar a nossa coragem. A tal força interior que nos ajuda a saltar para o desconhecido com a certeza de que não caímos. A coragem faz parte da fé. E a fé também se resume em fazermos a nossa parte, em primeiro lugar, sabendo que o Pai vai lá estar para fazer a parte Dele. A nossa parte é dar o salto sabendo que o Pai nos dará um chão fofo onde aterrar. A coragem e a fé andam sempre de mãos dadas. São a antítese da procrastinação e do medo. São forças motrizes que se manifestam em cada decisão pequenina que tomamos. Em cada “não” ou em cada “sim” que dizemos em função do bem. De qualquer espécie de bem. Ou de qualquer forma de amor.

Vale a pena pensar se o que chutamos para o ar, deixando para depois, não nos vai cair em cima mais à frente. Relembro que a força da gravidade puxa tudo para baixo, com a maior verticalidade possível. Se encontrar a nossa cabeça pelo caminho, esborracha-nos o cérebro. Não me parece que valha a pena. Quando chutamos a lata, temos o mesmo problema. Os metais pesados também tendem a ficar no nosso sistema. Ficam no nosso caminho e vão-se acumulando até serem um amontoado de sucata e ferro velho que se encontra à nossa frente e que nos impede de ver a vista do outro lado. Também não vale a pena, com tanto mundo lindo para apreciar.

Resumindo: procrastinar só faz mal. Bem me parecia que esta palavra era muito, muito feia…

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Pesos e medidas

Hoje tenho estado a pensar sobre as medidas da importância. Como é que se pode medir o quanto nos importamos com os outros ou o quanto os outros se importam connosco. Cada um de nós tem o seu peso e a sua medida. Porque não existe uma medida universal para algo tão importante na nossa vida? Não entendo. Existe formas de medir a tendência para o mais infinito e para o menos infinito - que ninguém sabe exatamente o que isso é - e não se mede o quanto somos significantes uns para os outros. Pelos vistos não se consegue encontrar, de forma tangível, a área que ocupamos nos outros corações. O peso que temos na vida desta ou daquela pessoa. Ou a distância que nos separa e aproxima. Nem a velocidade com que nos encontramos. Nem a profundidade com que sentimos. Não sabemos ponta do quanto, de forma palpável, contamos para a felicidade dos outros. Ou que diferença fazemos nas suas vidas. Ou se lhes dividimos as tristezas, pomos em comum os gostos e multiplicamos as alegrias e os sorrisos. Parece que a matemática, afinal, não interessa para grande coisa. Só serve para ajudar a edificar fora de nós. No meio ambiente: pontes, estradas, arranha-céus e outras coisas do género. Para aquilo que verdadeiramente interessa, não ajuda. Não ajuda no que diz respeito às medidas do nosso coração e do que se passa lá dentro. Todo o nosso mundo relacional é construído às apalpadelas, por tentativa e erro. Por isso é que passo a vida a dizer que não vale a pena racionalizar as emoções e os sentimentos. Para quê? Não bate certo. Os sentimentos são intangíveis e fluidos. São invisíveis e, no entanto, podem ter tanto pano para mangas. Têm formas pouco geométricas e tantos ângulos quantos os pontos de vista. Não são dados a sequências nem se regem pelas regras das probabilidades. De facto, a parte mais significativa da nossa vida é completamente avessa a qualquer género de categoria, estatística, percentagem ou racionalização. Nem uma matriz como deve de ser se consegue fazer com os nossos sentimentos. Não dá para nada. Apenas podemos tratar dos sentimentos e das emoções com a balança que Deus nos deu: o coração. Não há outra forma. E colocar a cabeça a pensar em função do coração e não o contrário. Deve-se “emocionar” a cabeça ao invés de se “racionalizar” o coração. Difícil mas possível e desejável. De vez em quando apetecia-nos ter uma fórmula resolvente que resolvesse estes enigmas sem grande gasto de energia. Mas, tal como já disse anteriormente, as fórmulas matemáticas não aquecem nem arrefecem o que se passa no coração. É como misturar bagos de romã com tapetes persas: nada a ver uns com os outros.

Este assunto dá-me sempre volta à cabeça. Por vezes dizem-nos que somos muito importantes e muito especiais mas não nos cuidam. Deixam que as distâncias sejam de separação e não de encontro. Deixam que se possa medir o que nos separa em quilómetros ou em horas de silêncio. Eu que adoro palavras não as concebo sem conteúdo que é o mesmo que dizer, sem substância, sem comportamento em conformidade. De que vale dizerem-nos que somos bonitas e atuarem connosco como se fossemos feias. Ou fazerem-nos sentir que somos feias. Esta é apenas uma forma de ilustrar as discrepâncias que podem existir entre aquilo que as pessoas dizem e a forma como se comportam nos relacionamentos. Por vezes, nestas circunstâncias pode-se usar uma unidade de medida: a diferença é de metro! Ou, talvez as questões sejam geometricamente circulares e desenhadas a compasso, traçando-se uma linha fechada à volta de um ponto central: o umbigo de cada um! Há pessoas que são centradas no seu próprio umbigo!

Não compreendo porque é que os uns se esquecem dos umbigos dos outros. É que toda a gente tem um umbigo! E os umbigos são todos importantes e gostam de ser respeitados e considerados. Já foram ligação de vida. Já tiveram um papel muito importante, no útero materno. Mas é preciso dar um passo em frente e entender-se que o círculo desenhado à volta do meu umbigo termina na fronteira do circulo do umbigo do outro. E que deve haver linhas e áreas de interseção. Deve haver concessões e respeito mútuo pela importância que todos os umbigos têm. Mas esta coisa do respeito pelo outro também não se mede nem se pesa. Apenas se faz um cálculo aproximado e tosco, em função dos comportamentos que se nos apresentam. E depois, para complicar a história, as parcelas que uns usam para calcular são diferentes das parcelas de outros. E isto é uma grande confusão de narizes. Ou conseguimos respeitar profundamente as diferenças com um espírito de aceitação inabalável ou não há matemática que nos safe. Cá no meu conceito, haveria de existir um sistema bem montado de medida das coisas do coração. Toda a gente sabia em que pé é que andava e com o que podia contar. Assim, gastamos um montão de energia a tentar perceber as coisas, as razões e as consequências sem que se consiga chegar a grandes conclusões. E, apesar de me chamarem de linda, parece-me que há dias em que não sou linda que chegue. 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

As minhas janeiras

Queria que o Ano Novo cheirasse a morangos.
E que fosse macio como as nuvens.
E que fosse quentinho como o entardecer de junho.

Queria que o Ano Novo fosse sereno e ternurento.
Queria que me matasse a sede de calmaria.
Queria que fosse um caminho largo e reto, sem curvas.

Queria que o Ano Novo soubesse a mar, salpicado a flor de sal.
Queria que me matasse a fome de vida.
E que me lavasse as mágoas, cruas.

Queria que o Ano Novo fosse recém-nascido.
E que viesse apenas com a Graça que Deus lhe deu. 
E que trouxesse duas estrelas do Céu. 
Todos os recém nascidos trazem duas estrelas, uma em cada olho pestanudo. Uma ilumina o dia e a outra ilumina a noite. É o bastante.

Queria que o Ano Novo fosse uma cama de rede. 
Onde o nanar tem um efeito reparador.
E a alma descansa, serena.

Queria que o Ano Novo fosse um copo de pé alto.
Com dois dedos de bom vinho tinto.
Saboreado calma e intensamente, na melhor das companhias. 

Queria que o Ano Novo tivesse a pureza e a liberdade de uma papoila.
E queria que fosse um campo selvagem e aberto, a perder de vista.

Queria que o Ano Novo fosse tudo isto.
Só para variar.

A sorte não existe

Estou a ouvir uma música que gosto muito e cujo refrão é assim do género "...deixa-te ficar na minha casa, há janelas que tu não abriste...ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste...". Estes bocadinhos de refrão resumem a coisa. É difícil deixar partir quem foi muito significante na nossa casa, isto é, no nosso coração. E por mais que se salte de grande amor para fora, se a coisa não ficar bem resolvida, não descola, não desanda. Fica presa ao coração de uma forma viscosa, peganhenta e não há forma de arrancar. Vale a pena pensar nisto. Para se sair de um grande amor, ou se sai à força porque é o amor que sai de nós, da nossa casa, ou é melhor pensar bem sobre o assunto.

Tudo tem o seu tempo e o seu momento certo. Claro que por motivos de personalidade, esta é uma das minhas maiores dificuldades: perceber o tempo certo das coisas e das pessoas. É uma aprendizagem diária. E os amores também têm um tempo certo para tudo. Até para serem arrancados do peito. E, mesmo assim, não sei se não temos que dar um passo atrás e perceber se é um amor que se arranca ou que se guarda numa das gavetas do coração. Quando se quer saltar fora de um amor, seja lá porque motivo for - talvez porque só amar não chega - temos que refletir mais do que nunca. Não estou a falar de uma relação que termina porque o amor acabou. Isso é pacífico do ponto de vista que me interessa abordar. Não. Estou a falar de se terminar uma relação onde o amor ainda abunda. Mas onde, infelizmente, só o amor não chega. Pode chegar-se a um ponto onde o que magoa é mais pesado do que o bem que circula. Onde as lágrimas são mais do que os sorrisos e os sonhos. Pode haver um dia em que a balança se desequilibra para o lado do sofrimento. Estes devem ser momentos de grande serenidade. Não se devem tomar decisões em picos de tristeza. Embora seja deveras tentador. Parece que se resolve o problema pela raiz: mata-se o bicho e vai-se a peçonha. Mas não é verdade. Aquilo parece ser um alivio momentâneo, poderá pesar o resto da vida. Às vezes apetece partir a loiça toda e pronto! Mas a loiça partida dá muita trabalheira. Faz muitos cacos e nunca se concerta. Tem que se comprar tudo de novo.

Daí que se deva pensar bem sobre nós e sobre o nosso amor. Com serenidade, com sabedoria. As boas decisões só se tomam com paz no coração. Se não, os amores vão-se embora mas a suas sombras ficam connosco para sempre. Nunca partem. E isso assombra-nos durante muito tempo. Durante o tempo que demorar a maturar e a resolver o assunto. A assombração fica até sermos capazes de arrumar o passado. De o aceitar, de o integrar, de retirar as devidas aprendizagens e de se agradecer pelo efeito. Sim, agradecer. Agradecer ao Céu pela experiência de vida. Pela oportunidade de aprendizagem. Pela evolução que causou na nossa alma. Pelos macaquinhos que nos retirou do sotão. Quando somos capazes de fazer isto, conseguimos pacificar o coração e tomar uma boa decisão. Se arrancamos o amor do peito e da pele ou se o deixamos fechadinho numa gaveta especial para o efeito. Ou se ainda não se está preparado para deixar ir. Podemos querer abrir mais janelas e dar mais de nós a conhecer, sem nada a temer nem a perder. Numa atitude de entrega total sem nunca deixarmos de ser nós próprios e sabendo que pode ir ou rachar. E, se rachar, ficamos com a consciência tranquila que fizemos o nosso melhor. Fizemos o que estava ao nosso alcance. E isso também é pacificador. Tão sábio é quem luta pelo que ama como quem o deixa ir. A sabedoria pode ter, de facto, respostas opostas para situações similares. É a beleza da coisa.

Por vezes a nossa cabeça parece um grande ponto de interrogação. Não sabemos o que havemos de fazer. Sentimo-nos num beco sem saída. Não sabemos se havemos de andar para a esquerda ou para a direita. Nestas alturas, a prioridade é serenar. Pacificar. As dúvidas são tão maçadoras como as melgas. E as dúvidas não deixam ouvir o coração. São produto da nossa racionalidade, da nossa cabeça. As dúvidas não têm coração. E o amor tem tudo a ver com o coração. Daí que valha a pena serenar a cabeça e deixar o coração invadir os nossos sentidos. Apesar da dor, vale a pena esperar para que o coração nos dê a resposta. Vale a pena deixar que este nos aponte o caminho. Relembro que o nosso coração é muito mais inteligente do que a nossa cabeça. Porque no nosso coração é onde mora a nossa essência, onde mora Deus. O caneco é que isto é muito difícil de se fazer. Implica muita maturidade, muita serenidade, muita fé, daquela da boa, à prova de bala. Implica não ter medo. Implica desapegar que é outro berbicacho difícil de descascar. Parece que tudo o que importa é difícil. Parece que sim. Até diz que as dores de crescimento são difíceis. Basta serem dores para serem difíceis de aguentar. E parece que o crescimento e que a evolução são sempre acompanhados de sofrimento. Também parece que não existe amor sem sofrimento. Aqui está uma coisa bem chata de se encarar. Amas e sofres ou não amas. Eu escolho amar. Na verdade também é bem fácil sofrer-se sem se amar. Assim como assim, já que o sofrimento faz parte da vida e do crescimento, que seja por amor. Não há causa mais nobre nem mais bonita. Disto tenho a certeza. Não tenho é a certeza se consigo tomar as decisões certas no momento certo. Não sei qual é o meu melhor para poder fazer em conformidade. É muito mais o que eu não sei do que o que sei. Mas sei que me esforço e que tento. E que me levanto todos os dias sabendo que vou continuar a lutar. Por vezes é esta a sensação que tenho quando acordo. Mais um dia para lutar, para fazer o meu melhor, para arrancar a nata que a vida tem para dar. Mas por vezes tenho medo de não conseguir fazer o meu melhor. Ou de não ser capaz de lutar mais. Tenho medo de desistir em vez de decidir com sabedoria. Tenho medo que o cansaço se levante comigo. Tenho medo que o meu melhor não seja suficiente para o que é necessário. Tenho medo que o meu amor não seja fluido o suficiente para que, tal como a água, possa encontrar sempre um caminho. Às vezes tenho medo de acordar e de não se capaz de seguir em frente. A minha sorte é que tenho um coração de leão, um dom que Deus me deu, e que me faz sacudir os medos e colocar os pés fora da cama com a convicção que o pior já passou e que o melhor está para vir. Antes de tudo, Deus deu-me esperança e coragem. Isto eu sei. E quando tudo parece sem nexo, sem propósito, a esperança devolve-me o sentido da vida e a coragem empurra-me para frente. Espicaça-me a alma. Ambas devolvem-me a energia e o entusiasmo que me caracterizam. É a minha sorte. Sorte, não. A sorte não existe, o que existe é a Graça de Deus. E essa, sinto-a todos os dias. Salva-me de mim própria.

domingo, 27 de novembro de 2016

À procura de si próprio

Conheço uma estrelinha que anda há procura de si própria. Que ainda não se conseguiu encontrar. E eu não consigo ajudar esta estrelinha. Talvez porque estes processos sejam muito íntimos e solitários. São processos que rasgam para dentro, que perfuram até ao núcleo da essência estrelar. O que quer dizer que a estrela tem que se encontrar dentro de si própria. Tem que encontrar as suas respostas no âmago da sua essência e não ao seu redor. 

Quando se passa muito tempo a tentar encontrar fora aquilo que deveria estar dentro, um dia acorda-se e sente-se o vazio. A solidão. A imensidão da tristeza que está dentro do peito. E é como se se tivesse perdido meia vida. Nada preenche, nada anima. Porque se procurou construir tudo fora e não se construiu nada por dentro. Seguiu-se o correto, a segurança, o aprovável, em vez de se seguir a felicidade e a vontade própria. Tomaram-se decisões para evitar o sofrimento em vez de se tomarem decisões para arriscar no amor, na vida, na alegria. E quando a vida nos acha bons demais para não vivermos de acordo com a nossa essência, com aquilo que somos de verdade, manda-nos ao chão. Quando a vida acha que não estamos a fazer o nosso caminho, que andamos a fazer de conta que caminhamos ou andamos a fazer o caminho dos outros, passa-nos uma rasteira e caímos de cara na lama. É sempre assim. A vida gosta mais de nós do aquilo que nós gostamos dela. E tal como o nosso Pai do Céu, escreve direito por linhas tão tortas! Sempre que lhe perdemos o sentido ela dá-nos um abanão que é para não nos esquecermos de como ela é tão preciosa! Tão maravilhosa! Quando a nossa vida está muito torta é porque nos está a dar a oportunidade de a endireitarmos. Tenho a certeza absolutinha disto! 

A vida sempre nos confronta connosco próprios. E essa é a dor maior. O pensar nas nossas escolhas, o colher os frutos das sementes que deitamos à terra, o amargo na boca e, mais uma vez, a solidão do sentir as consequências. A solidão do que integramos. O cair em si próprio, por vezes, é cair estatelado no chão. Sem apoio, sem rede. Sem terra macia. A dureza da queda pode quebrar até a alma. Cair em si próprio pode ser a maior das quedas. A mais dura das quedas. Mas pode ser a queda que quebra todas as estruturas que não interessam para nada, que só eram de faz de conta e que deixa a descoberto a essência. Aquela que andava escondida por baixo da casca dura. Cair em si próprio pode trazer a vantagem de desfazer o casulo e de trazer à luz do dia a maravilhosa borboleta que tinha medo do sol. Para se sair do casulo é necessário muita coragem. E quando não se tem coragem, a vida trata de providenciar. Também na queda, existe uma escolha. Podemos escolher a atitude com que a encaramos. E a atitude é meio caminho andado para nos levantarmos, sacudirmos o pó e começarmos a andar outra vez. Mesmo que ainda não se saiba o caminho e mesmo que se sinta perdida, como a tal estrelinha. Eu respeito muito as quedas. Sei que são a resposta para o que se necessita. Mesmo quando não temos essa consciência. E, na verdade, a queda só vem quando não conseguimos aprender nada com os tropeções que tivemos ao longo do caminho. Quando teimamos em seguir aquilo que já sabíamos que era asneira. A queda é o remédio para a nossa alma. É um implorar do Céu para que se siga por onde se deveria ter ido desde o início, pelo caminho do amor e da felicidade. É o Céu a rogar por nós, para que sigamos a nossa essência. Aquela que veio connosco quando nascemos, aquela que nos foi oferecida pelo nosso Pai. A nossa essência é o nosso GPS. Se não lhe ligamos nenhuma, sabe-se lá onde vamos parar e que caminhos tortuosos é que trilhamos.

E volto à minha estrelinha perdida. A sensação de se estar perdido dá muito medo. E quando o medo é grande de mais não deixa ver mais nada. Parece que se corre à procura do caminho, mas, na verdade, está-se a correr à frente do medo. Para ver se se foge dele. Na verdade, a primeira coisa a fazer-se é parar e olhar o medo nos olhos, de frente. De peito aberto. Dói mas cura. Arde mas desinfeta. Se não se enfrentar o próprio medo não se consegue evoluir para a fase seguinte. Para a fase de reconciliação consigo próprio, chutando a culpa porta fora. E quando a culpa já foi de abalada, o medo torna-se mais pequeno e é dominado por nós em vez de nos dominar. Co-habita mas não é o dono da nossa casa. É apenas um hóspede que mais cedo ou mais tarde vai ter que dar lugar a outro.

A boa notícia vem a seguir: quando se sabe que se está perdido, como é o caso da minha estrelinha, é porque metade do caminho já está encontrado. É porque já existem muitas respostas. Já existem muitas reflexões e isso é muito bom. Só se consegue encontrar quem sabe que se perdeu. Não há volta a dar. E esta é uma boa noticia. Conhecendo a minha estrela como conheço, arriscaria dizer que a esmagadora maioria das respostas estão encontradas. A minha estrela não sabe é o que há-de fazer com elas. Sabe quais os caminhos. Talvez não tenha ainda conseguido olhar o medo nos olhos e desalojá-lo para dar lugar à coragem. A minha estrela conhece a sua essência, mas ela é tão grande e tão bonita que o assusta. Teme a sua própria essência. E também por isso, sofre. E ninguém teve tempo de o ensinar que o medo faz parte da vida. Que a insegurança faz parte da vida. E que o controlo é uma mera fantasia. Não se controla nada nem ninguém. Não se tem que ter as soluções nem as respostas para tudo. Ninguém ensinou à minha estrela que o caminho se faz caminhando. Que é preciso andar em vez de correr. E que é preciso saber colocar as pessoas antes das razões, dos porquês e das coisas. A minha estrelinha não sabe o que há-de fazer com o que tem dentro do seu coração. Também ninguém lhe ensinou que o coração contém o seu melhor. E que se alguém já lhe partiu o coração em mil bocadinhos, haverá sempre alguém que o saberá remendar. Se alguém já espezinhou um coração estrelar, haverá alguém capaz de o curar e de o proteger. Quem vem a seguir não pode pagar pelas maldades de quem veio antes. Quem vem a seguir deve ter, no mínimo, o benefício da dúvida. Ou não será justo. E uma estrela deverá cuidar, em primeiro lugar, do seu coração. Pois é no seu coração que mora a sua essência e todas as coisas maravilhosas que Deus lhe deu. Quando se renega o nosso coração, estamos a renegar a nossa centelha divina. O nosso caminho original. E lá se vai a nossa bússola e perde-se o norte.

A minha estrelinha precisa de se encontrar. A mim parece-me que precisa de tempo para integrar as suas descobertas, o seu cair em si próprio, os seus sofrimentos e todas as respostas às suas perguntas. Precisa de saber o que há-de fazer com tudo aquilo que já sabe. Com tudo aquilo que já descobriu e com tudo o que sente. Precisa de despejar o medo e hospedar a coragem de ser verdadeiro consigo próprio e com o seu coração. Era bom que a minha estrelinha não demorasse muito tempo a encontrar-se. Sabendo-se que estes processos são muito solitários e virados para dentro, não se tem tempo nem disposição para se cuidar das coisinhas boas que se tem à volta. Apesar de haver este lapso temporal para se encontrar a sua própria dimensão, o tempo, cá por fora, não pára. Os outros, importantes para a minha estrelinha, continuam as suas vidas e as suas caminhadas. As crias continuam a precisar de ser criadas. As amizades a precisarem de serem regadas. E os amores a precisarem também de qualquer coisa. Se demoramos tempo demais a descobrir o que efetivamente somos e queremos, e decidimos, afinal, retomar qualquer coisa que deixamos lá atrás, como a vida continuou a girar, a tal coisa já não está lá atrás, já foi à sua própria vida. E não é culpa de ninguém. É assim mesmo. É o lado B da questão. 

O meu maior desejo é que a minha estrela se encontre. Mais do que tudo, que se oiça. Que oiça o seu coração e que tenha a coragem de o seguir. Pela sua felicidade, para o seu bem, para o bem supremo da sua alma. Só assim encontrará a paz de espírito que tanto anseia. Que Deus a ajude! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

In Extremis

Ele há dias murchos como o outono. Não gosto muito do outono mas ele não tem culpa nenhuma. Parece que o outono é muito mais triste dentro de nós do que fora. É inegável a beleza que tem. As cores das folhas que se prolongam pelo chão, o por do sol mais afogueado que nunca, as nuvens cheias de tufinhos de lã e a brisa do vento a refrescar-nos as ideias. Hoje repensei sobre esta coisa de não gostar do outono. E é principalmente porque é o prelúdio do inverno. Mas o outono não tem culpa nenhuma de ser o que é nem do que vem a seguir. Se eu soubesse efetivamente viver um dia de cada vez não rosnava ao outono. Saberia apreciar as suas belezas e as suas excentricidades. Ainda não consegui aprender a viver um dia de cada vez. Nem a tirar a murchice do peito independentemente do que possa acontecer. Ainda não aprendi a encarar cada dia que começa como se fosse o último. Isto parece um pensamento tolo mas não é. É um pensamento de grande sabedoria. Li algures, nem me lembro onde, mas relacionado com Steve Jobs que quando este se levantava pensava o que iria fazer nesse dia tal como se esse dia fosse o último. Provavelmente, para ter este pensamento, Steve Jobs já sabia que tinha os dias muito contadinhos. Mas, na verdade, qual de nós não os tem? Quem é que sabe qual é o momento em que se apaga a centelha da vida? Para morrer, basta estar vivo. Não é necessária mais nenhuma condição. Quando nos levantamos da cama não sabemos se o nosso dia vai chegar ao fim nem como vai chegar ao fim. Sobre a hora seguinte ninguém sabe efetivamente coisa nenhuma. Apenas planeia, julga, prevê e prognostica. Certezas, só Deus tem. Então, encarar cada dia como se fosse o último, traria muita alegria ao contrário do que se possa pensar. Gostaria, sinceramente, de saber fazer isto. Para o bem da minha alma. E, em cada dia que eu pensava que poderia ser o último, tal como conheço a vida, seria um dia gasto apenas com amor. A usufruir de tudo o que amo. De todos a quem amo. E não gastaria nem um segundo com maçadas, preocupações, tristezas e afins. Não gastaria nem um bocadinho de bateria com más energias. E seria capaz, de peito aberto, de dizer a todos os que amo, o quanto os amo. O quanto me fazem bem. O quanto foram e são importantes. Talvez no último dia da minha vida fosse capaz de trazer à pele o melhor de mim. Só o amor. Deixaria as emoções menores para a terra comer. E iria ver o mar. E respirar o ar de vida com toda a reverência. E saberia agradecer o respirar como se não fosse uma coisa automática. E saberia que nada é automático. Tudo é uma dádiva. Tudo está disponível para o nosso usufruto mas não para a nossa posse. Não possuímos nada a não ser o amor que temos no peito.
Encarar um dia que nasce como o último que vemos nascer pode ser muito libertador. Pode ajudar-nos a fazer escolhas muito importantes. Como por exemplo, pode ajudar-nos a escolher se queremos ficar presos à mágoa ou mandá-la fora e ficarmos agarrados à alegria, à paz. Aceitar o que não tem remédio dá uma paz imensa. Podemos escolher qual é o lado da vida que queremos levar connosco: o bom ou o cinzento. In extremis temos uma tendência para decidir o que parece ser impossível. E a gastar as palavras com sabedoria. A dizer coisas bonitas. In extremis só interessam os abraços e a paz. A calma. Vai-se a pressa toda embora. Já não se corre nem se desgasta com o que não interessa. Parece que os valores ficam no sítio onde sempre deveriam ter estado. A coragem e a serenidade são meninas para nos invadirem e para nos levarem a fazer e a dizer aquilo que ficou trancado a sete chaves no nosso peito ou preso na garganta. Vai-se o medo e a ansiedade. Porque a coragem mata o medo e a serenidade engole a ansiedade. Parece-me que o último dia será um dia de muita paz, como se se tivesse a eternidade toda pela frente. Com a certeza que estamos mais próximo do nosso caminho original. Mais próximo do Pai. Eu posso não saber exatamente o que isto quer dizer, mas a minha alma sabe.