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domingo, 27 de novembro de 2016

À procura de si próprio

Conheço uma estrelinha que anda há procura de si própria. Que ainda não se conseguiu encontrar. E eu não consigo ajudar esta estrelinha. Talvez porque estes processos sejam muito íntimos e solitários. São processos que rasgam para dentro, que perfuram até ao núcleo da essência estrelar. O que quer dizer que a estrela tem que se encontrar dentro de si própria. Tem que encontrar as suas respostas no âmago da sua essência e não ao seu redor. 

Quando se passa muito tempo a tentar encontrar fora aquilo que deveria estar dentro, um dia acorda-se e sente-se o vazio. A solidão. A imensidão da tristeza que está dentro do peito. E é como se se tivesse perdido meia vida. Nada preenche, nada anima. Porque se procurou construir tudo fora e não se construiu nada por dentro. Seguiu-se o correto, a segurança, o aprovável, em vez de se seguir a felicidade e a vontade própria. Tomaram-se decisões para evitar o sofrimento em vez de se tomarem decisões para arriscar no amor, na vida, na alegria. E quando a vida nos acha bons demais para não vivermos de acordo com a nossa essência, com aquilo que somos de verdade, manda-nos ao chão. Quando a vida acha que não estamos a fazer o nosso caminho, que andamos a fazer de conta que caminhamos ou andamos a fazer o caminho dos outros, passa-nos uma rasteira e caímos de cara na lama. É sempre assim. A vida gosta mais de nós do aquilo que nós gostamos dela. E tal como o nosso Pai do Céu, escreve direito por linhas tão tortas! Sempre que lhe perdemos o sentido ela dá-nos um abanão que é para não nos esquecermos de como ela é tão preciosa! Tão maravilhosa! Quando a nossa vida está muito torta é porque nos está a dar a oportunidade de a endireitarmos. Tenho a certeza absolutinha disto! 

A vida sempre nos confronta connosco próprios. E essa é a dor maior. O pensar nas nossas escolhas, o colher os frutos das sementes que deitamos à terra, o amargo na boca e, mais uma vez, a solidão do sentir as consequências. A solidão do que integramos. O cair em si próprio, por vezes, é cair estatelado no chão. Sem apoio, sem rede. Sem terra macia. A dureza da queda pode quebrar até a alma. Cair em si próprio pode ser a maior das quedas. A mais dura das quedas. Mas pode ser a queda que quebra todas as estruturas que não interessam para nada, que só eram de faz de conta e que deixa a descoberto a essência. Aquela que andava escondida por baixo da casca dura. Cair em si próprio pode trazer a vantagem de desfazer o casulo e de trazer à luz do dia a maravilhosa borboleta que tinha medo do sol. Para se sair do casulo é necessário muita coragem. E quando não se tem coragem, a vida trata de providenciar. Também na queda, existe uma escolha. Podemos escolher a atitude com que a encaramos. E a atitude é meio caminho andado para nos levantarmos, sacudirmos o pó e começarmos a andar outra vez. Mesmo que ainda não se saiba o caminho e mesmo que se sinta perdida, como a tal estrelinha. Eu respeito muito as quedas. Sei que são a resposta para o que se necessita. Mesmo quando não temos essa consciência. E, na verdade, a queda só vem quando não conseguimos aprender nada com os tropeções que tivemos ao longo do caminho. Quando teimamos em seguir aquilo que já sabíamos que era asneira. A queda é o remédio para a nossa alma. É um implorar do Céu para que se siga por onde se deveria ter ido desde o início, pelo caminho do amor e da felicidade. É o Céu a rogar por nós, para que sigamos a nossa essência. Aquela que veio connosco quando nascemos, aquela que nos foi oferecida pelo nosso Pai. A nossa essência é o nosso GPS. Se não lhe ligamos nenhuma, sabe-se lá onde vamos parar e que caminhos tortuosos é que trilhamos.

E volto à minha estrelinha perdida. A sensação de se estar perdido dá muito medo. E quando o medo é grande de mais não deixa ver mais nada. Parece que se corre à procura do caminho, mas, na verdade, está-se a correr à frente do medo. Para ver se se foge dele. Na verdade, a primeira coisa a fazer-se é parar e olhar o medo nos olhos, de frente. De peito aberto. Dói mas cura. Arde mas desinfeta. Se não se enfrentar o próprio medo não se consegue evoluir para a fase seguinte. Para a fase de reconciliação consigo próprio, chutando a culpa porta fora. E quando a culpa já foi de abalada, o medo torna-se mais pequeno e é dominado por nós em vez de nos dominar. Co-habita mas não é o dono da nossa casa. É apenas um hóspede que mais cedo ou mais tarde vai ter que dar lugar a outro.

A boa notícia vem a seguir: quando se sabe que se está perdido, como é o caso da minha estrelinha, é porque metade do caminho já está encontrado. É porque já existem muitas respostas. Já existem muitas reflexões e isso é muito bom. Só se consegue encontrar quem sabe que se perdeu. Não há volta a dar. E esta é uma boa noticia. Conhecendo a minha estrela como conheço, arriscaria dizer que a esmagadora maioria das respostas estão encontradas. A minha estrela não sabe é o que há-de fazer com elas. Sabe quais os caminhos. Talvez não tenha ainda conseguido olhar o medo nos olhos e desalojá-lo para dar lugar à coragem. A minha estrela conhece a sua essência, mas ela é tão grande e tão bonita que o assusta. Teme a sua própria essência. E também por isso, sofre. E ninguém teve tempo de o ensinar que o medo faz parte da vida. Que a insegurança faz parte da vida. E que o controlo é uma mera fantasia. Não se controla nada nem ninguém. Não se tem que ter as soluções nem as respostas para tudo. Ninguém ensinou à minha estrela que o caminho se faz caminhando. Que é preciso andar em vez de correr. E que é preciso saber colocar as pessoas antes das razões, dos porquês e das coisas. A minha estrelinha não sabe o que há-de fazer com o que tem dentro do seu coração. Também ninguém lhe ensinou que o coração contém o seu melhor. E que se alguém já lhe partiu o coração em mil bocadinhos, haverá sempre alguém que o saberá remendar. Se alguém já espezinhou um coração estrelar, haverá alguém capaz de o curar e de o proteger. Quem vem a seguir não pode pagar pelas maldades de quem veio antes. Quem vem a seguir deve ter, no mínimo, o benefício da dúvida. Ou não será justo. E uma estrela deverá cuidar, em primeiro lugar, do seu coração. Pois é no seu coração que mora a sua essência e todas as coisas maravilhosas que Deus lhe deu. Quando se renega o nosso coração, estamos a renegar a nossa centelha divina. O nosso caminho original. E lá se vai a nossa bússola e perde-se o norte.

A minha estrelinha precisa de se encontrar. A mim parece-me que precisa de tempo para integrar as suas descobertas, o seu cair em si próprio, os seus sofrimentos e todas as respostas às suas perguntas. Precisa de saber o que há-de fazer com tudo aquilo que já sabe. Com tudo aquilo que já descobriu e com tudo o que sente. Precisa de despejar o medo e hospedar a coragem de ser verdadeiro consigo próprio e com o seu coração. Era bom que a minha estrelinha não demorasse muito tempo a encontrar-se. Sabendo-se que estes processos são muito solitários e virados para dentro, não se tem tempo nem disposição para se cuidar das coisinhas boas que se tem à volta. Apesar de haver este lapso temporal para se encontrar a sua própria dimensão, o tempo, cá por fora, não pára. Os outros, importantes para a minha estrelinha, continuam as suas vidas e as suas caminhadas. As crias continuam a precisar de ser criadas. As amizades a precisarem de serem regadas. E os amores a precisarem também de qualquer coisa. Se demoramos tempo demais a descobrir o que efetivamente somos e queremos, e decidimos, afinal, retomar qualquer coisa que deixamos lá atrás, como a vida continuou a girar, a tal coisa já não está lá atrás, já foi à sua própria vida. E não é culpa de ninguém. É assim mesmo. É o lado B da questão. 

O meu maior desejo é que a minha estrela se encontre. Mais do que tudo, que se oiça. Que oiça o seu coração e que tenha a coragem de o seguir. Pela sua felicidade, para o seu bem, para o bem supremo da sua alma. Só assim encontrará a paz de espírito que tanto anseia. Que Deus a ajude! 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

In Extremis

Ele há dias murchos como o outono. Não gosto muito do outono mas ele não tem culpa nenhuma. Parece que o outono é muito mais triste dentro de nós do que fora. É inegável a beleza que tem. As cores das folhas que se prolongam pelo chão, o por do sol mais afogueado que nunca, as nuvens cheias de tufinhos de lã e a brisa do vento a refrescar-nos as ideias. Hoje repensei sobre esta coisa de não gostar do outono. E é principalmente porque é o prelúdio do inverno. Mas o outono não tem culpa nenhuma de ser o que é nem do que vem a seguir. Se eu soubesse efetivamente viver um dia de cada vez não rosnava ao outono. Saberia apreciar as suas belezas e as suas excentricidades. Ainda não consegui aprender a viver um dia de cada vez. Nem a tirar a murchice do peito independentemente do que possa acontecer. Ainda não aprendi a encarar cada dia que começa como se fosse o último. Isto parece um pensamento tolo mas não é. É um pensamento de grande sabedoria. Li algures, nem me lembro onde, mas relacionado com Steve Jobs que quando este se levantava pensava o que iria fazer nesse dia tal como se esse dia fosse o último. Provavelmente, para ter este pensamento, Steve Jobs já sabia que tinha os dias muito contadinhos. Mas, na verdade, qual de nós não os tem? Quem é que sabe qual é o momento em que se apaga a centelha da vida? Para morrer, basta estar vivo. Não é necessária mais nenhuma condição. Quando nos levantamos da cama não sabemos se o nosso dia vai chegar ao fim nem como vai chegar ao fim. Sobre a hora seguinte ninguém sabe efetivamente coisa nenhuma. Apenas planeia, julga, prevê e prognostica. Certezas, só Deus tem. Então, encarar cada dia como se fosse o último, traria muita alegria ao contrário do que se possa pensar. Gostaria, sinceramente, de saber fazer isto. Para o bem da minha alma. E, em cada dia que eu pensava que poderia ser o último, tal como conheço a vida, seria um dia gasto apenas com amor. A usufruir de tudo o que amo. De todos a quem amo. E não gastaria nem um segundo com maçadas, preocupações, tristezas e afins. Não gastaria nem um bocadinho de bateria com más energias. E seria capaz, de peito aberto, de dizer a todos os que amo, o quanto os amo. O quanto me fazem bem. O quanto foram e são importantes. Talvez no último dia da minha vida fosse capaz de trazer à pele o melhor de mim. Só o amor. Deixaria as emoções menores para a terra comer. E iria ver o mar. E respirar o ar de vida com toda a reverência. E saberia agradecer o respirar como se não fosse uma coisa automática. E saberia que nada é automático. Tudo é uma dádiva. Tudo está disponível para o nosso usufruto mas não para a nossa posse. Não possuímos nada a não ser o amor que temos no peito.
Encarar um dia que nasce como o último que vemos nascer pode ser muito libertador. Pode ajudar-nos a fazer escolhas muito importantes. Como por exemplo, pode ajudar-nos a escolher se queremos ficar presos à mágoa ou mandá-la fora e ficarmos agarrados à alegria, à paz. Aceitar o que não tem remédio dá uma paz imensa. Podemos escolher qual é o lado da vida que queremos levar connosco: o bom ou o cinzento. In extremis temos uma tendência para decidir o que parece ser impossível. E a gastar as palavras com sabedoria. A dizer coisas bonitas. In extremis só interessam os abraços e a paz. A calma. Vai-se a pressa toda embora. Já não se corre nem se desgasta com o que não interessa. Parece que os valores ficam no sítio onde sempre deveriam ter estado. A coragem e a serenidade são meninas para nos invadirem e para nos levarem a fazer e a dizer aquilo que ficou trancado a sete chaves no nosso peito ou preso na garganta. Vai-se o medo e a ansiedade. Porque a coragem mata o medo e a serenidade engole a ansiedade. Parece-me que o último dia será um dia de muita paz, como se se tivesse a eternidade toda pela frente. Com a certeza que estamos mais próximo do nosso caminho original. Mais próximo do Pai. Eu posso não saber exatamente o que isto quer dizer, mas a minha alma sabe.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Olhos de água

Ontem foi um daqueles dias em que me senti bastante inspirada e alegre. Estive num encontro com música e poesia. E trouxe comigo uma frase que me ficou aferroada cá por dentro: “Se os meus olhos secarem…” 

E pensei que me apetecia escrever sobre este assunto. Se os meus olhos secassem ou quando os meus olhos secarem, o que terei eu a dizer? Será que os meus olhos poderiam secar por terem perdido a capacidade de chorar? Deus me livre! No dia em que eu não chorar já não sou eu. Já não estou a viver, estou a vegetar. Tenho uma lágrima fácil de mais que espero que seja inesgotável. Isto porque os meus canais lacrimais têm uma ligação direta ao meu coração. Deve ter sido algum defeito de fabrico assim remendado à pressa. Mas agora já não sei funcionar de outra forma. É tudo intenso. Emociono-me demais. E isso faz parte da minha essência. E as lágrimas correm como forma de aliviar a pressão, a muito boa ou muito má. Se os meus olhos secassem, seria sinal que as minhas emoções já não eram minhas. Já não as sentia. Seria um sinal de que a frieza teria tomado conta de mim. Teria o coração gelado e o mar que tenho cá por dentro seria um imenso glaciar, deserto e sem piada nenhuma. Se os olhos secassem como é que a música, a natureza, a criação, e todas as maravilhas que me rodeiam poderia fazer parte dos meus mundos? Se os meus olhos secassem, de que valia ter coração, cérebro, corpo, alma e tudo mais o que me constitui? Seria tudo inútil. O que seria eu se os meus olhos secassem e as lágrimas não me rolassem pelas bochechas abaixo com tanta facilidade? Que espécie de pessoa seria eu? Provavelmente, se os meus olhos secassem, eu já não seria coisa nenhuma. Com olhos secos não se sorri. Não se ama. Não se esperneia. Não se faz nada que valha verdadeiramente a pena. 

Se os meus olhos alguma vez secarem, também me seca a alma e a flor da vida. E deixo de valer um fósforo. Não sei nem quero saber o que é ter os olhos secos. Mal por mal, que estejam sempre rasos de água! E também podem ter algumas rugas. Daquelas para cima que é sinal que também sorriem muito. A minha mãe sempre disse que eu sorrio com os olhos. Eu não posso saber verdadeiramente destas coisas porque não vou para o espelho ver como é que é quando estou a sorrir espontaneamente. E quando se vai sorrir para o espelho, nunca é um sorriso espontâneo. É artificial. O que interessa é que também se sorri com os olhos. Eu, que sou intensa em tudo o que faço e sinto, diria que sorrio de corpo e alma. Com todas as células. Daí que os sorrisos criem rugas. Mas são lindas rugas de alegria. As lágrimas também fazem rugas, vincam emoções no rosto. Rugas destas só podem ser rugas bonitas.

Se os meus olhos secassem também me secava o sangue nas veias. E seria como uma árvore sem seiva, morta, seca, oca e feia. Sem capacidade para criar raízes nem para receber a luz do sol. Sem ser capaz de transformar nada à volta. Sem segurar o solo nem travar a força das chuvas. Sem ser verde de vida. Apenas de um cinzento moribundo a aguardar ser pó de terra. Se os meus olhos secassem também se acabavam as palavras. Se calhar, as minhas palavras crescem nalguma árvore que se enraizou no meu coração. Uma árvore grande com ramos cheinhos de letras. É só abanar e elas caem em palavras. Muitas e generosas. Formam textos. Esta árvore de vida mata a sede com as lágrimas salgadas que caem dos meus olhos. Por tudo isso, peço a Deus que não deixe secar os meus olhos. E, no dia em que ficarem secos para sempre, peço ainda que os olhos da minha alma sejam sábios, contemplativos e cheios de amor. E que saibam recordar com benevolência tudo o que os meus olhos do rosto viram enquanto tiveram água de vida. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Jururu

Hoje estou jururu. Tenho andado por aqui a pensar num assunto que me custa a entender. Mas que é perfeitamente real, possível e se calhar mais comum do que me possa parecer. E tem a ver com aquelas diferenças que existem entre as pessoas. E com os medos e com o amor. Os temas que afinal regem a nossa existência. O amor e o medo, como tantas vezes tenho escrito, são os dois principais propulsores dos nossos impulsos. Eu gostaria que nesta dualidade ganhasse sempre o amor. Mas, infelizmente, o medo tem uma expressão muito significativa nas escolhas que as pessoas fazem. Parece mais imediato escolher jogar à defesa, contornar o medo, evitar o sofrimento. Por vezes até acontecem coisas caricatas como tomar decisões que fazem sofrer que se fartam só para evitar o sofrimento. Contraproducente, não é? E, se observar um bocadinho o que me rodeia, é o que vejo acontecer. E bem perto de mim. A queimar de tão perto que estou dos acontecimentos.

Vejo o medo que as pessoas têm em abrir o coração. De amarem. De se envolverem afetivamente. Parece que é o fim do mundo. Parece que se fragilizam. Eu não entendo. Sofrem que nem uns desgraçados para controlarem o que sentem, magoam os outros, não vivem, não partilham, não usufruem, só pelo medo de serem magoados e de sofrerem. Nem dão o benefício da dúvida à situação que se apresenta. À pessoa que se apresenta. Sofrem e fazem sofrer por uma hipótese de qualquer coisa que pode vir a acontecer. Fazem com que a pessoa de quem gostam pague pelo sofrimento que outras já causaram. E isso não é justo. E as injustiças também magoam muito. Todas as pessoas são diferentes e não existe um amor igual ao outro tal como não existem duas pessoas iguais. Isto é tudo tão óbvio mas quando se tem medo, não se vê o óbvio. Só se vê a possibilidade de as coisas darem para o torto. E não se considera a hipótese de as coisas darem para o direito. Tenta-se defender o coração que, por sua vez, não serve para nada se não se deixar o amor entrar. Para que é que serve ter coração se não for usado? Só para bater? Então é apenas um músculo, com uma função fisiológica, e não é um coração. Podemos chamar-lhe o que quisermos mas não é um coração digno desse nome.

Parece que para algumas pessoas vale tudo até ao momento em que se começam a envolver emocionalmente de forma intensa. Aqui é a altura de travar, de desligar botões e mais tudo o resto que tiverem à mão desde que fiquem bem defendidos e com menos hipóteses de se magoarem. De preferência com uma probabilidade a tender para zero de isso acontecer. Parece-lhes que o amor traça relações de dependência. Ainda não aprenderam como o amor é libertador e como fortalece ao invés de enfraquecer, como julgam. Vêem as coisas todas ao contrário. E vivem ao contrário. E magoam os outros, mesmo que não queiram. Não é porque sejam maus. É porque não sabem fazer melhor. E quanto melhores são, do ponto de vista do carácter e do coração, maior é a trapalhada que fazem. Asneira atrás de asneira. E as asneiras têm sempre consequências. Uma das leis universais, como se sabe, é a da total liberdade nas escolhas que fazemos. E a total escravidão na receção das suas consequências. Nunca falha. Somos livres de semear mas apenas colhemos o que plantamos. Nem mais nem menos. Da forma que for e doa a quem doer. Principalmente dói ao próprio apesar de outros sofrerem por tabela.

Por vezes tudo isto é tão tristonho. Apetecia-me pegar em algumas pessoas e abaná-las tanto que os seus medos ficavam todos diluídos no resto das emoções e ficavam todos trocados. Talvez ajudasse a ver a vida com outros olhos. A olhar para os outros com olhos de amor e não com olhos de medo. A querer viver em vez de apenas sobreviver, bem defendidos no seus castelos. Se estas pessoas soubessem que as muralhas que nós construímos são sempre de areia, não perdiam tempo com isso. De um momento para o outro vem uma brisazinha (nem é preciso ser um grande vendaval) e lá se vão as muralhas todas. E fica-se ainda mais vulnerável do que quem não tem tanta defesa como ponto de partida. Quem gasta muita energia a defender-se não sabe o que é dar e receber. Nem entende esta troca. Tem medo dela. Não se dá ao luxo de sentir a energia que o amor produz. A energia mais bonita e mais forte que existe. Por si só. Não precisa de embrulhos nem de enfeites de espécie nenhuma. O amor é energia pura.

Cada vez me sinto mais extraterrestre. Mais fora deste planeta. E isso deixa-me jururu. Eu que gosto tanto de cá viver e de pessoas. Mas cada vez mais sinto uma distância abismal entre a minha forma de ver a vida e a forma das outras pessoas. E volto ao mesmo. Cada vez pertenço menos. Cada vez me identifico menos. Quanto mais afinidade encontro por dentro, com o mundo espiritual, menos afinidades encontro à minha volta. Diz que é um dos preços que se paga por se escolher este caminho. Por se querer evoluir espiritualmente. Mais uma vez, as consequências das nossas escolhas. Eu escolhi um caminho que também me traz muita tristeza e desgosto. Mas o que de bom me proporciona é sempre mais forte, mais bonito. Assim tem sido até ao dia de hoje. E tenho-me recusado a deixar que as tristezas sejam mais fortes e que ocupem mais espaço que as alegrias. E recuso dar mais importância ao que é mau do que ao que é bom. Até ao momento tenho conseguido, sabe Deus como. Com muito sal na almofada, com muito sangue no coração e com muitas feridas nos joelhos. Mas sei qual é o objetivo da minha caminhada embora possa desconhecer o caminho. Mas o que não conheço não me dá medo. E isto faz toda a diferença na forma como levo a vida e na forma como me relaciono com os outros. Mesmo que na maior parte do tempo me custe muito a aceitar as escolhas que as outras pessoas fazem embora as entenda. Há uma lógica divina em tudo o que nos acontece. Há uma lógica divina na forma como a vida se nos apresenta. Em algumas situações é tão fácil perceber o porquê das coisas, o porquê das situações. A chatice é que não posso fazer nada com isso. Tudo o que consigo ver e saber tem que ficar para mim. Tenho que guardar. Não ajuda ninguém. Porque tudo precisa do seu tempo. E quando as pessoas estão preparadas, o entendimento aparece de alguma forma. Não posso ser eu o elemento precipitador. Poderá ter o efeito contrário, o de revolta, de desânimo, de descrença, de dúvida.

Para quem tem muitos bichos-carpinteiros, como é o meu caso, ver os navios a passarem ser fazer nada com isso, é um bocadinho difícil. Mas também o ficar a observar na margem é uma das minhas aprendizagens. Só vou ao navio quando ele atraca e abre o porão. Em mais nenhuma circunstância. Tenho que aprender a conviver com a impotência e a aprimorar a paciência e a serenidade. Tenho que aprender a gerir o tempo dos ciclos da vida e das pessoas que é diferente do tempo que corre nos relógios. Tenho estas aprendizagens todas para fazer e a vida tem sido muito generosa em oferecer-me situações onde tenho podido aprender estas coisas. Numas vezes sou melhor aluna do que noutras. Mas o erro também faz parte da aprendizagem.

E continuo jururu apesar de estar aqui a destilar o que me queima. A mim parece-me tão fácil escolher o caminho do amor. Não conheço nenhum melhor. Pode doer. Mas não amar ainda dói mais. Uma vida vazia causa mais buracos no coração do que umas rachadelas de vez em quando. Mas, o pior de tudo, no meu ponto de vista, é uma vida de faz de conta, de conveniência, de contrato. São aquelas vidas cheias, cheias, cheias de parecer o que não são. E este vazio é um vazio corrosivo. É um ácido que durante um tempo fica quietinho, a fingir-se de morto. Mas, um dia, quando Deus manda, uma partícula de qualquer coisa junta-se a esse vazio e pumba! Desata a corroer, a queimar, a destruir. E esse vazio, quando se acorda para a vida, destrói o coração e a alma. A tomada de consciência de que a vida tem sido uma ilusão e um faz de conta dá um trambolhão muito grande. Mas a tomada de consciência é o primeiro passo para a mudança e para a evolução. A tomada de consciência do medo é o que permite andar em frente. Saber do que se tem medo é uma grande bênção! Podemos aceitá-lo, trabalhá-lo e ultrapassá-lo. E passar a viver na outra ponta da corda: na dimensão do amor. Os medos gostam de andar escondidos exatamente porque quando se escondem não afloram à consciência e mantêm o seu poder. E quando o medo tem poder, está tudo estragado. Eu gostava tanto que se olhasse para o medo com olhos de amor. Esta é que é cura! O medo foge a sete pés do amor, nada pode contra ele. A partir do momento em que somos capazes de olhar para os nossos medos com olhos de amor, de compaixão, aceitamos que não somos perfeitos, que falhamos, que sofremos, que caímos, que choramos e que tudo isso faz parte da vida. Isso e o seu contrário. E quando se tem em visão global do que é andar por aqui no planeta azul, tudo toma o seu devido lugar e é relativizado. E o medo perde o seu protagonismo. E a curiosidade para se olhar para o que está para além do que nos assusta permite-nos espreitar o amor. E quando o espreitamos, temos logo imensa vontade de o deixar entrar. E a cura começa. E não há nada, mesmo nada, que o amor não cure. Desde que se queira. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um peito aberto

Quero-o bem mais do que perto. 
E por mais que procure fechar todas as portas e janelas,
Quando se vai, meu peito fica exposto, aberto.
Correm-me as tristezas pelas veias e não encontro sangue. Só água salgada. 
Leva-me o coração consigo e deixa-me a alma gelada.
Fica a noite nos meus olhos e o deserto na minha boca. 
Ficam as penas e os poços. Ficam-me as dores e os ossos.
Ficam as saudades e as melancolias. 
Ficam os dentes afiados e as raivas frias. 
Ficam os prantos e os tormentos.
Ficam os pensamentos e a vontade.
Quando se vai, leva-me o brilho, o ânimo e a liberdade.
Fico vazia.

Quero-o bem mais do que perto.
Junto a mim onde a distância não afasta o seu cuidado. 
E há um mar que se interpõe entre o meu querer e o meu peito aberto.
E a esperança esconde-se por detrás de qualquer barco parado. 
É um dos que quando não vê com os olhos não sente com o coração. 
O meu querer cabe num mundo inteiro e o seu cabe todo numa mão. 
Mão pequenina, que se fecha em concha e se enterra nas fundas areias. 
Só dá conta do seu umbigo, da sua casca e é água gelada que lhe corre nas veias. Nas minhas, transbordam torrentes salgadas. 

Quero-o bem mais do que perto.
As almas conversam sem darmos por isso. Sem querer. 
Os corações entendem-se sem esforço, sem intenção, sem feitiço. 
Só porque sim. Só por assim ser. 
Porque quando está longe esquece-se de mim inteira. 
E isso magoa muito mais do que a lonjura.
Fecha o seu peito. E abre o meu. Fica aberto em ferida. 
O meu peito aberto deixa sair o que o seu cuidar não procura.
E o vazio deixa-me sem eira nem beira, quase perdida.

E porque não quero crer no que pressente o meu peito aberto,
Quero-o bem mais do que muito perto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As lâmpadas do Céu

Existem coisas difíceis de conjugar na nossa vida. Principalmente para quem acredita num mundo espiritual muito mais rico e extenso do que este que conhecemos com os nossos 5 sentidos. Conjugar o nosso bem-estar terreno com o bem supremo da nossa alma é uma coisa bastante complicada. É de ir à lágrima. Também tem dias de uma alegria inexplicável. De uma paz quase surreal. Caminhar para o bem supremo da nossa alma é uma caminhada que se faz com os pés descalços, calcando cada pedrinha que nos aparece no caminho. Os pés ficam cheios de feridas e às vezes já não nos apetece caminhar mais. Apetece desistir e pronto. Apetece calçar umas pantufas muito fofinhas daquelas que nos fazem andar nas nuvens. Mas quando me dão essas vontades (vezes demais para o meu gosto…) vou de joelhos. Tento arrastar-me. Mesmo sangrando. Se sangro é porque não consigo aceitar o que a minha alma necessita para evoluir. Ou então estou a experienciar as consequências das escolhas menos boas que fiz. Tudo para aprender. A questão é que ainda não consigo aprender serenamente todas as lições que a vida me quer ensinar. Ainda esperneio muito. Ainda me enfureço de vez em quando. Ou tenho pena de mim própria o que também é um sentimento pouco nobre. Mas lá vou levando o dia-a-dia da forma possível tentando fazer sempre o que o Céu me indica como melhor. Cá na minha maneira muito particular de escutar o Céu, lá vou dando um passo atrás do outro. E o que interessa é que vou conseguindo. Não é com pantufas fofinhas mas é com a ajuda dos anjos que me aliviam o peso do meu próprio corpo. E o caminhar lá fica mais leve. Eu até gostaria de refilar mais um bocadinho mas não posso. Sei que foi a minha alma que escolheu este caminho. Antes de nascer, a malta combina lá no Céu aquilo que tem que passar, o que tem que experimentar para poder evoluir como alma. E eu (com o meu feitio) devo ter escolhido aprender uma data de coisas de uma assentada só. Devo ter feito uma lista que me permitisse tratar de um montão de assuntos de uma só vez. Para não passar a vida a andar para trás e para a frente de reencarnação em reencarnação. Sabendo disto, como é que a pessoa vai refilar muito e soltar os cavalos maldizendo os tropeções do caminho? Não pode, tem que agradecer bem do fundo do seu coração. Saber das coisas nem sempre traz felicidade. Normalmente traz tristeza e chatices. A ignorância é uma senhora muito feliz! Não se aborrece com nadinha na vida. Tanto se lhe faz como se lhe fez. Saber-se qualquer coisita já traz uma grande responsabilidade. A responsabilidade, em primeira instância, de salvarmos a nossa alma. De aprendermos, de evoluirmos, de nos tornarmos cada vez melhores pessoas e enriquecer a alma com a luz da bondade que vamos conquistando e amealhando no coração. E não vale a pena querer fazer alguma coisa pelos outros antes de começarmos a fazer primeiro por nós próprios. E não, não se trata nada de egoísmo, pelo contrário. Só podemos dar o que temos. Só podemos amparar o que somos capazes de compreender. Só ajudamos a levantar alguém se tivermos força para nos sustermos de pé. Se não formos primeiro cá dentro não conseguimos ser para os outros. Ou então somos de uma forma parasitante. Ajudamos os outros para nos alimentarmos de agradecimentos e de reconhecimentos. Aconchegamos os nossos vazios com a ilusão do que vem de fora para dentro. Coisas um bocadinho complexas. Mas pronto, o ser humano é infinitamente complexo e infinitamente simples dependendo da perspetiva com que se olha. Na minha estranha forma de saber das coisas, sei que o mundo espiritual é muito simples. O Céu é muito simples embora profundo e extenso. Embora cirurgicamente justo, verdadeiro, generoso e livre. A liberdade que o Céu dá por vezes até me assusta. Este poder que tenho nas mãos de escolher o que me der na bolha é altamente assustador…e se a minha bolha se avariar? E eu só escolher fazer asneirada para a minha alma? O Céu deixa. Antes não deixasse. Antes não me desse assim tanta liberdade. Mas é assim mesmo. O respeito pelo ser humano e pelo seu livre arbítrio são sagrados para o Céu. Ninguém tem autorização para mexer no livre-arbítrio de cada um. E como sempre costumo dizer, o maior medo que tenho é de mim própria. De não saber escolher bem as sementeiras. De não saber honrar a confiança que a minha alma depositou em mim quando combinou que eu viria para cá nesta vida aprender o abecedário de A a Z, custasse o que custasse. E limpar uns carmazitos pelo caminho. A minha sorte é que o nosso Pai, na sua infinita generosidade, deixa-nos experimentar o que combinamos mas, pelo sim pelo não, manda-nos umas ajudas suplementares para aguentarmos o trajeto. E o Pai tem sido muito generoso comigo. Tão generoso que por vezes até me sinto mal comigo própria por não conseguir andar mais feliz e alegre. Na sua generosidade, o Pai tem-me capacitado com aquilo que eu nem sonhava poder existir. Tem-me rodeado do que eu necessito. Tem-me dado a força e a presença de espírito que me fazem falta para seguir o tal caminho sem bússola. Tem-me dado o conhecimento e a forma de o colocar em prática para o meu bem e para o bem dos outros. Por vezes receio não conseguir corresponder a tanta confiança que me foi depositada. O que me consola e o que me afasta o medo é ter a certeza de que a paciência do nosso Pai é infinita. E que Ele acredita sempre em nós mesmo quando nós temos todas as dúvidas do mundo. A generosidade é, sem dúvida, mãe da força. A generosidade do Céu é assim como um GPS que nos indica qual a próxima etapa. Ajuda-nos a caminhar até lá, com amparo, mesmo quando os pés doem muito. Todas as dores que temos nos pés são descontadas na alma. A matemática do Céu também é muito simples. Também cada vez mais busco a simplicidade, em todas as suas vertentes. Ou melhor, busco a simplicidade em todas as vertentes da minha vida. A simplicidade é sempre fonte de amor. Cá para mim, o amor é a partícula original de onde salta todo o universo. Simples, como só o amor sabe ser. Nós, na nossa dimensão humana, é que temos a mania de o complicar. Se não fosse a simplicidade do infinito amor do nosso Pai, onde estaria eu? Talvez refastelada no sofá, sem bolhas nos pés e com uns joelhos bonitos. Mas oca, vazia e com a alma chorosa. Tenho a certeza que cada lágrima que me sai dos olhos é menos uma que a minha alma chora. E quanto menos chora, mais brilha. E essa é essência da coisa: tornar a nossa alma tão brilhante que quando voltar a casa vai direitinha para o sítio das lâmpadas, ajudar a encher o Céu de luz. Para sempre.

O fim do mundo

Há dias em que não me apetece escrever. Não é muito bom sinal. Normalmente é sinal de tristeza, daquela que não se trata com as palavras. Ou então apetece-me praguejar com alguns aspetos da vida. E como vou tentando ser melhor pessoa todos os dias (mesmo naqueles em que não consigo e em que me sinto um bicho ruim capaz de bater em meio mundo) opto por não escrever palavras duras, a rasgar. Não ajuda ninguém. Talvez nem me ajude a mim própria. E reforça o meu lado mais lunar, de alguma têmpera fora de ordem, a roçar a fúria. A fúria é o meu pecado mortal. Enfureço-me muito facilmente. Facilmente demais para o bem da minha alma. Esta é a minha luta diária, acalmar os ímpetos e a busca pela serenidade e pela paz.

E mais uma vez comecei a desenvolver o assunto pelo lado contrário. Sou perita nisto! Na verdade, hoje é um dos dias em que tenho que escrever senão rebento. Em que tenho as palavras e os pensamentos a bailarem na minha cabeça. E esta dançaria toda incomoda-me. Não me consigo focalizar noutra coisa enquanto não despejar o que me vai na alma. Por vezes, a partir de uma conversa qualquer, fico a matutar num determinado pensamento e tenho que o estampar cá fora para voltar a ter sossego. Então, para sossegar, tenho que falar no fim do mundo. Ou melhor, conversar sobre aquela vontade que dá nas pessoas de irem para o fim do mundo. Se pudessem, iam para o fim do mundo. E isto é um bocadinho aborrecido, porque assim de caras, o mundo não tem um fim. Eu entendo o que isto quer dizer embora não tenha este tipo de ganas. Tenho outras. Às vezes apetece-me hibernar. Fechar-me e só me soltar quando o mundo à minha volta estiver diferente. E isto porque me custa a aceitar aquilo que não posso mudar. Tenho a tal costela muito resolutiva e não gosto de deixar coisas penduradas ou por resolver. Quando não é possível mudar o que não me pertence, o que não está na minha mão, apetecia enfiar-me dentro de um casulo e dormir em paz sem que nada me aborrecesse. Adormecia na esperança de que quando acordasse, para além de me ter transformado numa linda borboleta, também tudo cá por fora já estaria no seu devido lugar. Estas são assim as minhas vontades de fuga à realidade. Como sou também um bocado bicho-do-mato (muito pouca gente sabe disto…mas sou mesmo), é sempre mais feminino enfiar-me num casulo do que numa toca qualquer. Parece mais delicado, mais levezinho…mas continuando no que interessa: esta é a minha forma fantasiosa ou mágica, se assim se quiser dizer, de lidar com a realidade. Cada um de nós terá a suas próprias formas de o fazer.

No caso da minha estrelinha, apetecia-lhe ir brilhar para o fim do mundo. O que é francamente difícil porque, como já disse, o mundo não tem fim. É redondo como se sabe. Como são redondos os problemas da nossa vida. Se não os resolvemos, eles continuam a voltar, como se orbitassem à nossa volta. Como se sabe, as orbitas também são redondas, ou quase redondas, vá lá, no máximo, elípticas. E os problemas vão andando sempre à nossa volta, mais próximos ou mais distantes, dependendo do ponto orbital em que se está. Mas voltam sempre ao local onde doem, por vezes ganhando ainda mais peso, mais velocidade, mais tamanho. Podemos mandar os problemas dar um giro (ou vamos nós dar o tal giro deixando os problemas no sítio) mas quando este se completa, normalmente, as coisas não se resolveram por si só. Os problemas continuam os mesmos. Diz-me a experiência que até fermentaram. Cresceram. Tornaram-se maiores desde a última vez que os vimos. E quanto maiores são, mais custam a resolver e mais doem. São assim como uma nhanha daquela que se vai espalhando pelo meio ambiente onde se encontram. Podem ser assim como uma pequenina ferida que não se desinfeta ou que não se cuida e que se torna numa infeção generalizada.

Uma outra chatice que normalmente advém de se querer ir para o fim do mundo é o facto de nós próprios irmos para lá também. Podemos fugir (momentaneamente) dos nossos problemas mas não fugimos de nós próprios. O que nos mói, continua a moer. E o que nos dói continua a doer. É assim, mal comparado, como uma paz pobre. Empurra-se com a barriga e faz-se de conta que os problemas ficaram a muitos quilómetros de distância. Pode aliviar, de facto. Mas não deixa de estar tudo cá dentro, na mesma. E também não deixa de estar tudo onde se deixou antes de se abalar para o fim do mundo. E sofre-se. E existe uma linha ténue que separa a liberdade da solidão. É preciso ter-se sabedoria para que aquilo que hoje é liberdade não se transforme amanhã em solidão, daquela brava. Não há bela sem senão. E uma fuga nunca é uma solução. Pode ser uma resolução disfarçada. E tudo o que se disfarça, tarde ou cedo se destapa. É assim. Tenho cá para mim que até deve ser uma das tais leis do universo. A verdade vem sempre ao de cima, quer se queira, quer não se queira, tarde ou cedo. Também não deixa de ser verdade que de vez em quando é preciso distanciarmo-nos dos problemas para os podermos ver em toda a sua amplitude. Não é no meio da confusão que se vêem prismas. É preciso alguma distância para se serenar e para se encontrarem as melhores soluções. As que dão paz interior são sempre as melhores. Mesmo que pareçam esquisitas aos olhos dos outros. A distância com que nos afastamos dos problemas também tem que ter um meio-termo. Se nos distanciamos demais, os problemas podem aparentar ser um pontinho pequenino lá no horizonte, quando, na verdade, podem ter a altura do Kilimanjaro. A distância tem que ser equilibrada. E o equilíbrio é muito útil em todas as resoluções de vida. 

A minha estrela é bonita a brilhar em qualquer lado. Também no fim do mundo, se conseguir descobrir onde isso fica, será uma estrelinha maravilhosa. Triste mas maravilhosa. Maravilhosa de essência porque isso é indestrutível. Contra a tristeza é que não há nada a fazer lá para os lados do fim do mundo. Ouvi dizer que por lá, a tristeza ainda tem umas garras mais fortes que se cravam no coração das estrelas. É preciso ser-se blindado para que isso não aconteça. E se uma estrela for blindada não é uma estrela. Ou eu tenho estado muito enganada e já não entendo nada de nada do coração das pessoas, ou das estrelas, como se quiser.

Talvez a minha estrelinha não saiba que tudo na vida tem o tal equilíbrio ou a tal balança. Que ganhar e perder são os dois lados da mesma moeda. Quando nos queremos livrar daquilo que nos magoa, de qualquer maneira ou fugindo, estamos a deitar uma data de bebés fora com a água do banho. A água já não nos serve mas os bebés são preciosos. Quando vamos para o fim do mundo, não levamos o que nos magoa mas também não levamos o que nos faz bem nem o que nos dá alegria. Fugimos dos papões mas também fugimos dos ursinhos de peluche. E deixamos que os papões sejam mais fortes e mais importantes que os ursinhos de peluche, que vão ficando cada vez mais pequeninos sem terem quem nanar. Ir para o fim do mundo tem destas coisas. Permitimos que o que é mau seja mais importante e forte do que o que é bom. Permitimos que os desamores sejam mais fortes que os amores. Deixamos cair bons bocadinhos de vida pelos degraus abaixo só para que os maus bocadinhos não subam pela escada acima. Talvez a minha estrelinha pense que no fim do mundo não existem degraus. É tudo direitinho. Mas não é. Porque o fim do mundo tem montes de tristezas que levamos connosco e tem uns buracos muito fundos, feitos do vazio que deixámos para trás. E mesmo sendo o fim do mundo, longe, longe, esses buracos vazios arranjam maneira de comunicar com os buracos vazios que ficaram nos peitos de quem perde estrelas. E o vazio, quando se encontra, multiplica-se.

Aprender a fazer com que aquilo que nos faz bem seja mais importante e mais forte do que aquilo que nos faz mal não é para qualquer um nem é assim tão fácil. Tem que se treinar muito, todos os dias. Tem que se ser obstinado. Tem que se ser peitudo para a vida. Tem que se ter muita coragem. A coragem de enfrentarmos o que está dentro de nós, de forma nua e crua. Coragem para enfrentar o que está à nossa volta. Coragem para pedir ajuda, se for necessário. Não é fácil baixarmos a guarda para olharmos para além da nossa carapaça. É preciso coragem para nos permitirmos ser frágeis nem que seja só por um bocadinho. É preciso termos muita, muita força para sacudirmos dos nossos ombros o que tanto nos carrega e nos faz vergar a alma. Esta supremacia do bem e do amor parece ser tão difícil embora seja tão óbvia. Tento que assim seja todos os dias. Nem sempre consigo mas esforço-me. E não sou uma estrelinha brilhante já com estas coisas enfiadas no meu DNA. Conheço uma estrela que tem todo o potencial. Já veio assim. É só querer que assim seja e deixar que a sua essência conduza a sua luz. E o fim do mundo deixa de ter qualquer piada.