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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Bichos incompreensíveis

Uma querida amiga pediu-me para escrever sobre os homens. Ela anda atravessada com eles. Eu também. Faz de conta que se juntou a fome com a vontade de comer. Ainda pensei não escrever sobre o tema pois como tenho estado numa lua de "descasca pessegueiro", poderei desatar o saco e ser injusta. É que quando me dá este tipo de macaca é melhor esperar que passe. Mas enfim...como sou uma senhora e gosto de pensar que já vou conseguindo controlar a tempera, aqui vai disto. Principalmente porque a minha tão querida amiga me pediu. Normalmente costumo dar o titulo aos textos depois de os ter escrito na integra. Este não será exceção. No entanto, apetece-me escrever sobre as incoerências, as dessincronias e sobre mais uma data de coisas que não compreendo no bicho homem. Costumo conseguir compreender bem as pessoas. Esforço-me por ver as coisas pelos prismas que os outros utilizam para lidarem com o mundo. Procuro sair das minhas referências e pontos de vista para poder entender as referências dos outros. Desta forma conseguimos ser mais justos com as outras pessoas. E adoro pessoas. Mas nesta altura do campeonato, não entendo os homens. Se calhar é porque eles não são pessoas! Talvez seja esta a grande descoberta do século! Os homens, ao contrário do que se pensava, não são pessoas! Só podem ser extra terrestres a fazerem de conta que são pessoas. E são extra terrestres tão evoluídos que já deram a volta à rosca da tecnologia de ponta e voltaram aos pontos de partida originais. Simples, simples. Funcionam em compasso binário, em 1 e 0, em corrente alternada e a preto e branco. De tão simples e óbvio, tornam-se difíceis de entender. São muitíssimo focados (normalmente no seu próprio umbigo) e só vêem o que está em perfeita linha reta com os olhos. Têm uma espécie de cegueira lateral, periférica e seletiva. Nem no frigorífico conseguem encontrar o que está nas partes de trás das prateleiras. Ou as coisas saltam das prateleiras e lhes dão umas dentadas ou não as encontram. É assim o bicho homem. Na esmagadora maioria das vezes, incompreensível. Posso dar uma explicação um bocadinho mais antropológica e relembrar que são seres racionais há muito pouco tempo na sua história evolutiva. O bicho homem ainda está completamente programado para a caça, para a procura de alimento, para a proliferação da espécie e para a defesa do seu clã. Estas marcas genéticas ainda fazem muita mossa numa época de racionalidade e consciência. Parece-me que caçar talvez seja a atividade fundamental do lado mais animal do homem. Daí que sejam tão focados. Na sua própria sobrevivência e na sobrevivência da espécie. Um belo bife no prato ou uma mulher bonita na cama, provêm da mesma origem: da caça. Isto não foi dito de uma forma muito elegante. Mas a elegância também não é para aqui chamada. Os homens são assim e não vale a pena dourar a pílula. São o que são. E para mim, mulher, tantas vezes vezes incompreensíveis. Não entendo como funcionam. Não entendo o que querem. Há dias em que não percebo nada de nada. Ou então, o que percebo é de uma simplicidade tão grande que nem acredito no que estou a ver. Há uma coisa que sei: os homens podem ser comparados aos carros. Mais ou menos sofisticados, funcionam todos sobre o mesmo princípio. Só é necessário ter-se unhas para a a condução. E não vale a pena querer transformar um desportivo num carro familiar nem um todo terreno numa limusine. Não dá. Muito menos vale a pena comprar um fiat uno a pensar que se vai transformar num ferrari. Cada carro é o que é e cada homem também. Se nos convencermos disto, é mais fácil a gestão intra espécie.

Eles também não têm a culpa toda. Para além da força da genética que não controlam, são educados para serem fortes a todo o custo. Têm que ser à prova de bala. Não podem chorar, não devem demonstrar sentimentos. O coração é um pedaço de músculo que só serve para bombear o sangue e não lhe podem dar mais nenhuma funcionalidade. Só serve para ir batendo. E têm um medo do coração que se pelam. Gajo que é gajo trata logo de arranjar uns botões ou uns interruptores para desligarem o coração das suas outras funcionalidades. Emoções é para maricas. Ninguém lhes ensinou esta linguagem mais emocional, mais carinhosa, mais doce, mais vinda do coração e da alma. Por vezes saltam-lhes cubos de açúcar pelos olhos mas são incapazes de dizer uma palavra doce. Que bichos esquisitos! Parece que são frios de neve. Sem sentimentos. Muralhas invioláveis. À primeira vista é o que parecem. E são normalmente incapazes de se colocarem no lugar dos outros. Parece-me que o lugar deles já é muito difícil de entender. Também não deve ser fácil ser homem. Essa coisa de ser forte o tempo todo deve dar uma trabalheira...e deve consumir toda a energia disponível...por isso é que os desculpo. Os homens são, por vezes, crianças grandes. Assustadas com medo de o confessarem. Incapazes de lidar com sentimentos. Com imensa vergonha de falar sobre eles. E mais vale fugir do que enfrentar o coração. E só conseguem pensar numa coisa de cada vez. Se estão a pensar sobre o que lhes dói, são incapazes de pensar no que dói aos outros. Fecham-se sobre si próprios. Mudam de esquina ou de país. Os homens, que são simples, só são elaborados a fugir. São peritos em fugas para a frente, para trás ou para qualquer outro lado. Mais vale rabujar o touro do que fazer uma pega de frente. Lá na sua genética da caça, a defesa também é muito importante. Se não se consegue matar o bicho de forma limpa e sem grandes gastos de energia, mais vale fugir. O homem foge muito. Principalmente de si próprio e dos seus sentimentos. E estas fugas devem dar muito sofrimento, embora não sejam capazes de o admitir. 

Há coisas que me intrigam...se os homens são tão simples - porque o são -porque não são mais frontais? Quando querem terminar uma relação, porque não o expressam com simplicidade e frontalidade? Dizem que precisam de um tempo...ou que precisam pensar na vida...são estas incoerências que me custam a entrar na moleirinha. Não assumem as suas vontades com nobreza. Não entendem que a verdade dura é sempre mais digna do que a mentira doce. Na verdade, os homens são um bocadinho mentirosos e sabem adoçar a linguagem quando estão a mentir. A sua defesa pessoal acima de tudo. São capazes de passarem por cima dos sentimentos dos outros como os cilindros passam por cima do alcatrão. E, não maior parte das vezes, nem sabem que estão a cilindrar. Não pensam que magoam os outros. Acho que os homens já desistiram de pensar. Não pensam. Por isso é que não são pessoas. As pessoas pensam que podem magoar os outros com as suas manobras. E tentam evitar que isso aconteça. 

Uma outra coisa que me intriga é que são capazes de resolver uma data de problemas do mundo, são heróis a salvar vidas, a salvar a criação, a descobrir curas e a combater pela justiça e desorganizam-se com uma dor de barriga ou com uma unha encravada. Os homens funcionam, de facto, a preto e branco. São a muralha da china e, em simultâneo, são uns mariquinhas pé de salsa. Conseguem manobrar o maior e mais potente telescópio do mundo e não são capazes de nos olhar olho no olho e dizerem exatamente o que pensam. O homem, se não for extra terrestre, é, no mínimo, um dos mistérios da natureza. São capazes de estacionar um camião de olhos fechados e são incapazes de arrumar as coisinhas no seu próprio coração. São capazes de atravessar um oceano a nado e são incapazes de dar uma braçada ao encontro da sua própria alma. 

Os homens são capazes de saber as medidas exatas do nosso corpo mas não sabem o tamanho do nosso coração. Nem sei se sabem onde fica...fazem muitas vezes lembrar-me as legiões de soldados romanos. Muito estratégicos na sua forma primitiva de avassalar o território dos outros: "a conquista é tudo, a posse é nada". São altamente inseguros e fazem o que está ao seu alcance para conquistarem a dama que no momento lhes interessa. Depois de conquistada, ficam seguros da vida e o esforço de manutenção é paupérrimo. Pelo menos os romanos sempre desenvolviam os locais por onde passavam e criaram um império. Os homens são mais de criar haréns...e nunca estão satisfeitos...como é que se compreende isto? A única explicação que encontro é que não vale a pena socializar bichos do mato. E os homens são bichos do mato. E a genética tem muita, muita força. O que lhes sobe ao subconsciente é a sobrevivência da espécie, especialmente à custa do seu próprio material genético. Um dos seus objetivos de vida (embora não o tenham assim tão acessível à consciência) é espalhar os seus próprios cromossomas por todo o lado. Serem os melhores nesse aspeto. Por isso são tão competitivos e exibicionistas. Faz parte da sua própria natureza. Não gostam de perder nem aos feijões. Estas coisas são apenas camuflagens de quem quer ser o melhor entre pares para ter maior poder de conquista e, dessa forma, espalhar cromossomas como quem espalha grãozinhos de areia ao vento. Estão a ver como os homens são funcionam todos sobre o mesmo principio simples? Convém não nos esquecermos destes aspectos estruturantes das suas formas de lidar com o mundo e, principalmente com as mulheres. Assim já sabemos ao que vamos. Não nos irritamos tanto...

Também deve ser porque não os compreendemos que lhes achamos tanta graça. São poços sem fundo e cartolas de ilusionistas. Nunca se sabem o que guardam nas profundezas nem que coelho vai saltar. Deve ser esta imprevisibilidade que os torna atraentes. Broncos, duros e insensíveis mas atraentes. Interessantes. A culpa deve ser da física, a tal ciência que diz que os opostos se atraem. Os homens devem ser do pólo norte e as mulheres do pólo sul. Uns são companheiros dos ursos polares e outro dos pinguins. Nada a ver. Mas no meio destas antagonias todas, quando dois pólos se encontram e resolvem aceitar-se e entender-se com as diferenças que tem, é uma maravilha. Até o Céu entra em festa. Os arcos-íris vêm daí. É o fogo de artifício que o Céu envia quando comemora um encontro entre bichos que não se topam. Quando o amor é mais forte que as diferenças. Quando o amor vence tudo o que lhe aparece pela frente, é feriado festivo no Céu. E nos feriados festivos há fogo de artificio e os arco-íris aparecem. 

(Não e não. Vou resistir à tentação de explicar porque é que os arco-íris são tão raros...).

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A parvoíce de verão

Resolvi renovar a imagem deste blog. Os meus mundos necessitam de ser dinâmicos. Diz-se que as aquarianas são assim. Detestam rotinas e mais do mesmo. Assim, vou alterando o que posso alterar. Com tantas cores que a vida tem, não é necessário andar-se sempre com os mesmos tons. Por outro lado, quando não se consegue mudar questões estruturais da nossa vida (embora nos apeteça) vamos mudando o que podemos mudar, o que está ao nosso alcance. 

Resolvi então arejar um dos meus mundos mais queridos, o da escrita. Como sou eu própria, mantenho uma certa constância em termos cromáticos e de forma. Há coisas que aqui, tal como na vida, não abdico. São muito próprias, muito minhas. De resto, adoro experimentar tudo o que é diferente de mim. O que é meu eu já conheço. Interessa-me experimentar tudo o que é novo. Deve ser mesmo por ser aquariana de signo com ascendente em aquário. Muito aquário por metro quadrado! Não me safo do exotismo deste arquétipo. Falo disto como se percebesse alguma coisa deste assunto: não percebo nada. Apenas vou lendo umas coisas, satisfazendo a minha curiosidade. Parece que a curiosidade também é uma característica marcante da malta que nasce sob a influência deste signo. Enfim...e para me desviar da conversa também estou cá eu...

Estava a conversar sobre mudanças e sobre renovações. A maior parte das pessoas faz muitas destas limpezas e mudanças com a entrada de um novo ano. Como sou um bocadinho ao contrário, os meus arejamentos acontecem muito após as férias de verão. Em primeiro lugar porque adoro o verão. A sua simplicidade e o bem estar que proporciona. O verão deve ser masculino. Rege-se por princípios simples, não complica e as coisas são como são. Sim ou não. As hormonas do verão não influenciam o seu estado de espírito. Quando se chateia, chateia-se e toda a gente dá por isso. O verão não amua, não muda de cara várias vezes ao dia. Por outro lado, é teimoso e, quando ferra, vai até às ultimas consequências. Quando é para desaparecer, desaparece sem que ninguém perceba porquê. Sem explicações. E os veraneantes ficam à toa sem saber o que fazer nem como lidar com os desaparecimentos pouco previstos pelos institutos de meteorologia. Não há qualquer espécie de dúvida que o verão é gajo. Com as suas qualidades e com os seus defeitos. Corta a direito sem pensar se magoa ou não as pessoas que estão no seu caminho. Por vezes, o verão também só faz de conta que é corajoso. Não é, falta-lhe a coragem para mudar o que tem que ser mudado. Faltam-lhe palavras, cheiros e sonoridades para dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. É o que é. O verão é um gajo que funciona a preto e branco, de acordo com a sua estrutura cromática. De acordo com o seu umbigo. Mas eu gosto do verão na mesma. Tem duas componentes que me são fundamentais à vida e ao meu bem estar geral: o sol radioso e o mar calmo. É a altura do ano em que o mar nos deixa partilhar todo a sua essência. E eu não sei viver sem o mar. É a altura do ano em que o sol dá umas varridelas nas nossas estruturas mais bafientas. Por isso adoro o verão. Mesmo quando tem as telhas de gajo, aquelas que eu não compreendo. Mas mesmo o que eu não compreendo não deixa de ser atraente. Ou, no mínimo, desafiante. Se o sol trata do nosso bafio, o mar acaba por nos purificar. Eu sou outra depois de uns dias de sol e de mar. Mas sou outra um bocadinho melhor. Refrescada. Principalmente nos meus propósitos. Tenho um conjunto de coisas que quero fazer. Posso não conseguir virar tudo o que me apetece. Mas consigo fazer pequenas coisinhas (novas) ou reforçar algumas que já faço e que me dão muita alegria. Eu começo sempre um ano novo depois do verão. Esta época é a minha época para sacudir o pó. Para reforçar o que é bom e para espantar o que me faz mal. Vou tentar que este pós ferias seja um tempo para sarar algumas feridas abertas que se instalaram ao longo do ano. 

Tenho um rasgão aberto no coração que tem pingado muito sangue. Vou ter que estancar isto, custe o que custar. É que sem coração também não sou capaz de viver. E procuro deixar que o tempo faça os seus milagres. Que ajude a cicatrizar antes que se morra da hemorragia. O tempo cura tudo. É verdade. Mas não sei qual é o meu limite para ir sangrando pelos cantos até que o tempo se digne a fazer que tem que ser feito. Morrer-se também é uma forma de cura. Fica-se curado de uma vez. Não gostaria que o meu coração morresse para a vida. O coração é o que eu tenho de melhor. É a minha peça mais preciosa. É a que mais estimo. É onde tenho todos os tesouros que Deus me deu. É onde se encontra a minha essência e toda a minha força. Sansão tinha a sua força no cabelo. Eu tenho no coração. Não sei explicar, mas é assim. Sendo uma pessoa forte de estrutura, sei que é no meu coração que esta força está instalada e que se multiplica. Por isso tenho medo de abafar e de oprimir o meu coração. De o ter doente, cansado, com feridas. Por vezes todo partidinho...tenho medo que não consiga recuperar de umas vezes para as outras. Tenho medo de perder a vontade de amar com toda a força, com toda a confiança. Não gosto de coisas pelo meio, nem cheias de condições. Gosto de tudo intenso. Tenho medo de começar a ser mais contida, mais desconfiada, menos espontânea e menos autentica. Tenho medo de perder autenticidade. Às vezes perde-se pureza quando nos defendemos. Quando não abrimos o coração à vontade. Colocamos pezinhos de lã. Abusamos da prudência. Abrimos muito os olhos e fechamos o coração. Não me apetece nada ficar assim, de olhos escancarados. Apetece-me cada vez mais ser eu própria, como a água que rola montanha abaixo em vez de ser um lago sereno enfiado na cratera onde desaguou. Apesar de ser esquisita e diferente, cada vez mais bichinho do mato e cada vez menos entendida, quero ser sempre eu própria. Mas, de vez em quando, apetece-me tanto a paz e o sossego que tenho medo de mim. De trancar o que tenho de melhor só para que não doa tanto. As dores e as hemorragias exaustam. Isto é o lado B de um coração grande, intenso, indomável e com vontade própria. Quando maior é maior a superfície que pode ser atingida. Tudo isto em extensão e em profundidade. Tem sido uma canseira. Sinto-me muito cansada. A minha sorte tem sido o verão. A energia do sol. O envolvimento do mar. Estas duas forças têm-me salvado o coração muitas vezes. Quando estou à beirinha de perder a bateria toda, lá consigo encontrar a energia que me permite levantar a cabeça e seguir peituda para a vida. Aproveitá-la, espremê-la. Cada gota de vida que se absorve faz evoluir a nossa alma. E, no fim do dia, é isso que verdadeiramente interessa. O processo é que por vezes é bastante tortuoso (cada vez gosto menos de processos, tenho a dizer).

Mas gosto do verão por todas as razões e mais alguma. Porque posso viver a simplicidade que me agrada nas coisas. Com pouca tralha atrás. Sem necessidade de abafos nem de complementos. Podemos escolher andar como nos apetece, de chinelinha de dedo. Podemos enfiar qualquer coisa leve que está bem. Penso que as pessoas são mais felizes no verão. Retomam à sua simplicidade original. Soltam-se mais. Retiram mais prazer da vida. Apreciam melhor a natureza. Diria que no verão faz um calor que dificulta usarem-se máscaras e capas. E tudo o que promove a transparência é adorável. O verão é adorável. Talvez seja porque tem uma energia masculina que complementa a minha feminilidade. O verão apazigua-me. Acalma-me. Permite-me andar mais na rua. Observar melhor, sentir melhor, ouvir melhor e cheirar melhor. O verão apura-me os sentidos todos. Parece que me apura igualmente os sentidos espirituais. Parece-me mais fácil o contacto com este outro meu mundo. No verão está tudo muito mais apuradinho. Talvez porque a energia é capaz de fluir muito mais facilmente. Os canais estão mais abertos, mais disponíveis. Deve ser porque cada um de nós também está muito mais disponível para a vida. Comunga-se mais com a natureza. Estamos mais recetivos ao ambiente. Parece que se ouve mais musica, dança-se mais, passeia-se mais, absorve-se mais vida. E quando se absorve a vida, o mundo espiritual também se amplia. E quando o mundo espiritual se amplia, deve haver festa da rija lá no Céu. A mim parece-me que o Céu também festeja tudo o que é bonito. Tudo o que ilumina as nossas almas. E a mim, apesar dos pesares, o verão ilumina-me a alma. 

Embora saiba que todas as estações do ano têm o seu encanto e a sua utilidade, seria capaz de viver sempre no verão. O verão tem uma essência de liberdade que me encanta. A liberdade é encantadora em si própria. E a liberdade também mora no coração de cada um de nós. Somos almas livres apesar de tudo. Apesar dos grilhões dos sistemas. E não existem sistemas sem grilhões. Portanto, ser-se livre é um estado interior, mais ou menos pleno. Eu sou uma pessoa muito livre. Muito dona de mim própria. Interessam-me imenso as outras pessoas. Adoro pessoas, adoro o mundo e a vida. Mas não gosto que mexam na minha liberdade enquanto ser consciente de mim própria, com capacidade de escolha. Deus deu-me esse valor, à nascença. Deus fez-nos livres. Não são as outras pessoas que nos vão tirar o que Deus tão amorosamente nos deu. A minha liberdade é muito minha. E faz-me muito feliz. Não sei viver quando escolhem por mim. Por outro lado, não sei prender ninguém. Não sei pedir nada do que deva ser oferecido. Não sei atar nós nem colocar cadeados. Existem uma enormidade de coisas que as pessoas fazem umas às outras que eu não sei fazer. Nem quero aprender como se fazem. Quero poder ser. Simplesmente ser. E vou desejando que o meu ser seja despoletador de bons sentimentos por parte das outras pessoas. Em liberdade. Detesto cobranças, obrigações e amarrações. E adoro espontaneidade, autenticidade, ofertas e partilhas. Por isso vivo um bocadinho à parte. Sendo pouco compreendida. Sendo um bocado parva. Miguel Esteves Cardoso, que eu adoro, diz que tem que se ser um bocado parvo para se ser feliz. Pois como o meu verdadeiro objetivo é ser feliz, devo ser, por inerência, também um bocado parva. 

O tempo (que também é muito dono de si próprio e muito livre, e que não pode ser forçado) dá-nos um presente fantástico (se tivermos paciência para esperar): a maturidade de já não nos importarmos com determinadas coisas. Nesta altura da minha vida, já não me importo de ser parva. Ou que os outros me considerem parva. Já não quero saber. Já só quero ser eu. Simplesmente eu e livremente eu. Apesar de tudo isto dar muito trabalho. Ser-se o que se é, é muito trabalhoso. Dói. Faz partir o tal coração que está fragilizado. É preciso tomar doses cavalares de sabedoria e de paciência. Dá aso a muitas lágrimas. E as lágrimas causam rugas. Não é bonito. E para que conste, o mar é tão meu amigo que me contém as lágrimas. Deixa-me chorar e não se importa de ficar um bocadinho mais salgado à conta das minhas lágrimas. Deixa-me chorar só para ele. Ninguém mais precisa de ver. Entende-as. Está cheio delas. No verão, também posso chorar melhor. Posso entrar pelo mar adentro e chorar o que me apetecer. De forma simples e livre. Sem precisar de me justificar. Só porque sim. Só porque sou um bocado parva.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Rosa de Jericó

Se eu fosse uma pessoa delicada, hoje diria que me sinto como uma flor murcha a quem vão caindo as petalazinhas, uma atrás da outra. Mas como não sou delicada, não sei bem que comparação hei-de fazer. Mas a ideia é esta. Sinto-me a ficar murchinha. Vou murchando de dia para dia. Quando estou numa daquelas fases da vida um bocadinho difíceis, a saborear a impotência, a gerir a perseverança e o cansaço, o melhor que consigo fazer é andar um bocadinho murcha. Eu sei que tudo o que nos acontece tem um propósito e o que está no nosso caminho é sempre provido de sentido e de significância. Eu sei disto tudo. E esforço-me imenso para ser grata ao Céu por todas as experiências que me proporciona. E sei também que o Universo conspira a nosso favor. Mas a gestão que se tem que fazer entre o saber e o sentir é difícil. As experiências e as vivências trazem as suas chamuscadelas. Eu estou tão chamuscadinha que já nem preciso de ir à praia para me bronzear! Na verdade, é o coração que fica com queimaduras do 1º grau. E, se eu fosse a tal florinha, as pétalas cairiam do excesso de calor que apanham. A sorte é que a minha flora é mais do género rosa de Jericó, oriunda dos desertos e que em tempos de escassez, seca, sem perder a vida. Fica sequinha, sequinha parecendo palha transformada num novelinho duro e mirrado. Em tempos de abundância, quando a água chega, abre-se e torna-se verdinha, verdinha e esplendorosa. Vive lindamente totalmente emersa em água. E, tal como eu, não é uma planta nada delicada, é até bastante robusta e resistente e não tem pétalas, como seria de esperar. Por vezes sinto-me como esta planta. Não consigo é fazer-me de morta como esta plantinha é capaz de fazer. A disfarçar à espera que passe o tempo de escassez. Esta parte eu não sei fazer. Vou secando, secando, sem nunca poder ficar quietinha no meu canto em paz e em sossego, a funcionar apenas com os mínimos olímpicos. Mas esta planta de que vos falo diz-se que tem propriedades mágicas. Diz-se que limpa os ambientes de más energias. Onde ela está, o ambiente fica purificado. A mim parece-me ser uma característica bonita. Também gostaria de levar leveza aos sítios por onde vou e de aliviar com quem estou. Poder tornar os ambientes e as outras pessoas leves, limpas e puras deve ser uma virtude estupenda! Diz-se que a rosa de Jericó tem esse condão. Eu cá gostava de o ter. Pode ser que isto passe por osmose…pois é a única flor que me vejo a personificar. A esmagadora maioria das outras flores são delicadinhas demais para eu poder ter qualquer pretensão em traçar semelhanças. Nunca conseguiria encontrar similitudes entre mim e outra rosa qualquer. Com esta, a tal de Jericó, resistente que eu sei lá, consigo encontrar alguns paralelismos. Gostava era também de ter o seu sossego. É uma planta muito sossegadinha. Está sempre metida na sua vidinha sem depender de nada nem de ninguém. Se lhe derem muita água, abre os bracitos e as folhinhas todas e estica-se até mais não! Cresce, desenvolve-se, ultrapassa-se! Se lhe faltar a água e o calor apertar, fecha-se sobre si própria, transforma-se num rolinho cheio de pauzinhos secos e duros e sobrevive com o que tem. E nunca se queixa! Aprendeu a aceitar as circunstâncias da vida, ao seu redor, sem se queixar, sem exigências nem reivindicações. Por isso é que esta planta é admirável! Sabe viver! E eu gostaria de ser como esta rosa tão especial. Gostaria de saber viver em paz e em alegria com todas as circunstâncias com que a vida se me apresenta. Gostaria de me saber adaptar assim tão bem ao ambiente que me rodeia. Gostaria de ser capaz de me transformar sempre que assim for necessário. Gostaria de aceitar o facto de não poder transformar o ambiente à minha volta. Aceitar sem resignação, claro está. Aceitar verdadeiramente implica que não haja sofrimento. A resignação implica sofrimento. E é uma grande chatice. Aceitar as outras pessoas tal como elas são, com as suas telhas e amoques, também deveria ser um bocadinho mais fácil e sem sofrimento. Por vezes ainda me resigno com a forma de ser de cada um em vez de aceitar, sem qualquer espécie de mal estar. Isso é que é amar bem! Aceitar os outros tal e qual como eles são. Mas existem uns outros que são especiais de corrida nesta coisa das telhas. E esses ainda são mais difíceis de entender, de aceitar sem lágrimas e lamentações. Tenho tido tantas provações deste género, na vida, que qualquer dia já não tenho nem uma peninha da alma para torrar nalguma raio de sol mais quentinho que apareça por aí! Esta coisa de ter pena de mim própria também não condiz nada comigo. Aborrece-me. Eu, que gosto tanto da vida e de pessoas! E que tenho sempre um prisma positivo para ver as montras. Sou otimista e esperançosa, graças a Deus. Tenho é medo que o cansaço me apanhe. Tenho andado a correr uma maratona contra o cansaço. Desde há algum tempo. E uma maratona cansa muito, não só pelo tempo tempo que leva como pela distância que tem que ser percorrida. Uma maratona, para quem é mais de corridas em velocidade, é um cabo dos trabalhos...e tudo isto para aprender, para evoluir e para desenvolver a minha alma. Está certo. Mas lá que custa, custa!

terça-feira, 19 de julho de 2016

As linhas que nos prendem

As incoerências são como linhas assimétricas que supostamente devem manter um qualquer equilíbrio. Quando se é o 8 e o 80 em simultâneo, não há simetria nem equilíbrio que consiga resistir. Sinto-me presa por linhas que não compreendo. São linhas transparentes, de confiança. A confiança é o material mais resistente que existe para se fazerem linhas que ligam as pessoas. Dizendo melhor, que ligam os corações das pessoas. Confiar no coração de uma pessoa é a maior forma de confiança que existe. Por vezes não se confia nas cabeças nem nas palavras mas confia-se no coração. É uma bênção e uma maldição, esta espécie de confiança, feita de linhas transparentes. As tais linhas muito, muito fortes. São linhas que não nos deixam desistir, não nos deixam largar. Prendem e prendem mesmo quando achamos que já não aguentamos mais. De assimétricas que são, estas linhas, são incoerentes. Não entendemos porque repuxam e arrepanham de um lado e ficam laças de outro. Num lado apertam muito e no outro dão toda a largueza. E não se entendem. E tudo o que não se entende deixa margem para a imaginação e para a racionalização. Pode até deixar margem para o medo. E tudo o que dá medo, dói. E tudo o que não se compreende é passível de etiquetagem e categorização. E quando se encontram prateleiras para as coisas, elas deixam de ser elas próprias e passam a fazer parte das nossas referências. Julgamos o que não compreendemos para podermos encontrar algum sentido. E os julgamentos são sempre perigosos. Mas são formas de nos defendermos. Se não vemos as linhas que nos prendem, temos insegurança, temos incerteza, estamos no limbo, sem chão e sem rede. Aprender a flutuar, sem rede, sem medo de cair, sem medo de se magoar, é um processo bastante difícil. E flutuar nas relações, com a leveza necessária para haver paz de espírito, ainda é mais difícil. E flutuar com a (in)segurança de se estar seguro por linhas transparentes que não se vêem, é um ato de fé. Confiar no coração de alguém que não é coerente com o seu próprio coração é um enorme ato de fé. 

Eu sou uma pessoa cheia de fé. Graças a Deus. Sou otimista, tenho esperança para dar e vender. E normalmente não tenho medo nenhum de linhas transparentes nem de qualquer espécie de linhas que unem os corações. Nem medo de corações nem de pessoas. Mas como tantas vezes costumo dizer, tenho medo de mim própria. Tenho também medo da minha cabeça, da minha impaciência e da minha natureza resolutiva. Tenho medo de resolver acabar com as linhas transparentes. Porque apesar de serem as mais fortes que conheço, existe no mercado um dissolvente que as despacha num instante. E eu tenho medo de deitar a mão a esse dissolvente que, numa hora menos boa, se pode tornar muito apetecível. Por tudo isto e muito mais, tenho medo de dar espaço à minha impulsividade e de mandar tudo para o espaço. Pelo menos tudo o que magoa. Tudo o que não me preenche e tudo o não me sabe segurar. Parece que só o amor não basta. Acredito na força do amor acima de tudo. Mas parece que não basta, não chega. E isto porque está dependente do livre arbítrio de cada um. Depende de coisas maravilhosas como a sabedoria e como a coragem. São virtudes maravilhosas mas que nem sempre conseguimos mobilizar. E sem culpa de ninguém. Este palavreado nem é um palavreado a roçar a culpa. Nem a minha nem a dos outros. A culpa não é para aqui chamada. Cada um faz o melhor que é capaz de fazer com aquilo que tem. Com os recursos de que dispõe. Cada um precisa de aprender a reforçar as linhas que o prendem às outras pessoas. Precisa de aprender a dar cor a essas linhas transparentes para que o outro as veja. Para que o outro se sinta efetivamente seguro, cuidado, amado, com rede e chão. Colorir linhas é um dos fatores mais importantes para reforçar uma relação. Ou até para a manter. Se eu pintar as linhas que seguram o coração do outro, o outro sabe que pode contar comigo. Sabe exatamente como me pode encontrar e o que pode encontrar. Principalmente se souber o significado das cores. Quando ambos querem tecer um linda rede colorida, que estabelece uma livre passagem, uma ponte, segura, entre um coração e o outro, um amaranhado de linhas coloridas que põem em comum o que de mais precioso cada um tem, a vida é linda! Mas isto de colocar em comum qualquer coisa parece que é sempre tirado a ferros!!! 

Que medo que as pessoas têm de amarem e de se deixarem amar. Não compreendo. Sei que é assim e que cada um faz o que pode com o que tem. Mas nem sempre consigo compreender tudo o que gostaria de compreender e, principalmente, de saber aceitar sem mágoa. É a velha história das aprendizagens e da empatia. De nos sabermos colocar no lugar do outro com as suas condições. Esta tal de empatia, por si só, é uma ciência muito mais complicada do que a física quântica. Tudo o que tem a ver com pessoas é muito mais complicado do que outra qualquer ciência ou campo do conhecimento. Por isso é que as pessoas são tão maravilhosas. Todos os seres aprendentes são maravilhosos e é isso que nós andamos cá a fazer: a aprender, a evoluir. De vez em quando dá-me o medo de não conseguir aprender tudo o que devia. É que é tanta coisa, tanta experiência, tanta forma diferente de ver o mundo que receio não ser capaz de abarcar tudo e de entender o porquê das coisas. Ou melhor, o porquê das pessoas. Entender os porquês das pessoas causa-me muito sofrimento. E, de vez em quando, sinto-me muito cansada e apetece-me cortar as linhas todas e ir descansar. E dizer: e tal se tentassem entender os meus porquês e as minhas incoerências? Hein? E que tal fazerem alguma coisinha para verem as coisas pelos meus olhos? E se nesses momentos desse liberdade à minha vontade, dava cabo das linhas todas. As que prendem e as que não prendem. Arrasava com tudo e ia-me embora. A sorte é que já sei contar até 100 de trás para a frente. E enquanto vou contando, vai-me passando a vontade, a tal que se aborrece de morte com sequências de números. É a minha sorte...e o meu coração consegue falar sempre mais alto do que o meu cansaço e a minha fartura. Rezo ao Pai para que que o meu coração nunca fique afónico. E para que eu nunca me esqueça de como se conta até 100. De trás para a frente e da frente para trás.

Os olhos da alma

Existem olhares que matam. Não matam a vida mas matam o coração e a alma. Hoje estou neste comprimento de onda. A pensar na importância que os olhares têm. Eu, que sou uma pessoa cheia de palavras e que adoro este tipo de expressão, sou uma franca apreciadora de olhares. Não só de olhares como também de todo o conjunto de formas não verbais de comunicarmos uns com os outros. Da mesma forma que o nosso subconsciente e o nosso coração são muito mais inteligentes que o nosso cérebro e que a nossa racionalidade, o não verbal expressa muito mais sinceramente o que o outro está a pensar ou a sentir. E o olhar é majestoso nesta forma de comunicar. Penso que existem olhares que salvam e olhares que condenam. E não são necessárias quaisquer palavras a acompanhar o que se diz com os olhos. 

Neste momento tenho os pensamentos a mil à hora (o que não é difícil, tratando-se de mim). E penso nestas coisas dos olhares. Da importância que tem olharmos os outros, olhos nos olhos, de igual para igual. Sem ser de alto nem baixo para cima. E o olhar não depende do tamanho dos olhos. Depende do tamanho do nosso coração, do nosso carater e da nossa nobreza. Se dependesse do tamanho do olho, eu estava tramada, até porque tenho uns olhos muito pequeninos. Não se vê muito lá para dentro mas vêem muito do que se passa cá fora. Nos velhos tempos, os homens mongóis quando escolhiam as companheiras, escolhiam sempre as que tinham os olhos mais pequeninos. Isto porque acreditavam que assim, o mal não poderia lá entrar. Acreditavam que o mal pode entrar pelos olhos das pessoas e tomar conta delas. Invadi-las. Muito interessantes, estas crenças, não são? Também me parece. De facto, o mal pode entrar pelos olhos adentro. Principalmente se o virmos nos olhos dos outros. Principalmente se nos sentirmos criticados, julgados e rebaixados pelos olhares das outras pessoas.

Eu acredito que os olhares têm muito poder. Para o bem e para o mal. Por isso gosto tanto de saber das antigas (e atuais) crenças relativas ao poder dos olhos e do olhar. Como também adoro a pureza e a simplicidade, procuro saber umas coisinhas aqui e ali sobre antigos povos, ou sobre grupos/ comunidades de pessoas mais ligadas à natureza e mais próximas da sua essência. Não tão sofisticadas ou "civilizadas". Aprende-se tanto com quem é humilde e não pretende reunir a sabedoria do mundo...e em quase tudo aquilo que me lembro de ter ouvido falar ou de ter lido, os olhos são sempre, de uma forma ou de outra, o espelho da alma ou a porta de entrada para a nossa interioridade. E existe sempre um poder qualquer ou uma energia associada aos olhos e ao olhar. 

Ando a dedicar-me a este assunto. A refletir um bocadinho sobre isto. Sobre a transparência do olhar. Sobre como se sabe tantas coisas através do olhar das pessoas. Tenho uma cria que fala pelos olhos afora. E mesmo quando não quer falar sobre o que a mói, eu sei que algum bichinho lhe mordeu. Quando era pequenina, só pelo arregalar do olho, eu percebia que dali iria sair uma bomba! Normalmente uma pergunta inconveniente ou difícil...enfim, outros tempos que felizmente também deixaram muitas saudades. 

Tenho igualmente uma estrelinha na minha vida que também é só olhos. Tudo o que não diz por palavras, salta-lhe pelos olhos. Principalmente as emoções. A forma como se sente. A sua essência. As suas dores. As suas dúvidas. As suas barreiras. A sua alma garota. O peso da responsabilidade. O peso do que a acorrenta. Os medos. As lágrimas que chora para dentro. A compaixão. A tempera. A liberdade. Tudo isto se vê nos olhos. E é tão fácil ler olhos quando as almas já se conhecem. Quando os carnavais já são muitos. Como acredito na reencarnação, acredito que as pessoas se conhecem de outras vidas e que continuam a encontrar-se vida atrás de vida até cumprirem a missão que têm umas com as outras. Seja ela qual for. Só assim é que explico o facto de sentir aquelas sensações de familiaridade com esta ou aquela pessoa. Com a minha estrela, tenho quase a certeza que a conheço desde sempre. Por isso sou capaz de lhe ler os olhos. E se eu deixasse o meu coração e a minha alma interpretarem aquilo que os meus olhos vêem nos olhos da minha estrela, eu seria ainda muito mais justa e certeira. A chatice é que por vezes coloco a cabeça e a racionalidade a fazer leituras e estrago um bocadinho...se se conseguir deixar fluir as conversas entre olhares e entre corações, não há erro. Assim, usando a cabeça, existem dúvidas, receios e outras coisas que só atrapalham o conhecimento e a relação que as almas trazem. É que o que alma traz, a cabeça não se lembra. A nossa memória quase nunca consegue aceder à memória da alma. Às vezes consegue, mas apenas em momentos e circunstâncias muito especiais. Isto será tema para, quem sabe, uma outra conversa.

Se deixarmos fluir o que nos vem do nosso interior, se conseguirmos usar todas as nossas faculdade com a paz de espírito necessária, se conseguimos dar a devida atenção à informação a que acedemos interna e externamente, conseguimos ter uma noção mais exata de quem somos, para onde vamos e quem queremos que nos acompanhe. No fundo, conseguimos ir encontrando pequenos sentidos e significados para a nossa vida. Conseguimos colocar os pontos nos nossos "iis". Conseguimos ter a consciência de quem nos rodeia. Somos bem ou mal amados? O que vale e o que não vale a pena? E o que fazemos com o que conseguimos descobrir? Onde está a raiz das coisas? As verdadeiras causas? Quando queremos descobrir quem somos e que vida é que temos, Deus faz-nos a vontade e manda os sinais de luzes. E não há nada mais gratificante que é sabermos quem somos. Qual é a nossa essência. Este é o primeiro passo para tudo. Muitas vezes andamos a passear pela vida como se passeia ao domingo por uma marginal qualquer. Só a ver o que queremos ver, como se semana se resumisse naquele passeio. Descobrirmos o que somos sem disfarces e como são os que estão à nossa volta, tem um valor incalculável. Isto se acontecer de forma despida, sem artifícios, sem interesses e conveniências nos relacionamentos. Quando servimos os interesses de alguém, somos os maiores do mundo. Tratam-nos bem, com reconhecimento. Se o interesse desaparece, se o dinheiro acaba, se já servimos determinado propósito é que a coisa aperta! E os olhares dos outros mudam. Daí que é em tempos de escassez (da nossa) que verdadeiramente conhecemos os que nos rodeiam. Percebemos se verdadeiramente gostam de nós ou não. São nossos amigos ou eram amigos do bem estar que nós proporcionávamos? Os tempos de escassez são muito importantes na vida das pessoas. Colocam a nú quem nos rodeia. E, na maior parte das vezes, fazemos descobertas que doem até à ultima pontinha da nossa alma. Em continua abundância somos patitos alegres que não sabem nada do que se passa à sua volta. Apenas parece que se sabem. A alternância de estados, apesar de muito doloroso, faz-nos evoluir. Torna-nos mais conscientes, mais fortes e, normalmente, melhores pessoas. É com a escassez que aprendemos a valorizar a abundância. É na escassez que aprendemos a valorizar quem, de facto, merece esse valor. Bem sei que isto é fácil de dizer mas muito difícil de aguentar. Muito difícil, mas muito importante. A vida não é para ser vivida como uma ilusão patética em que andamos a fazer de conta que tudo é fantástico. A vida é para ser vivida no seu pleno. E a plenitude não existe sem a verdade nem a autenticidade. De que serve ter-se muita gente ao lado se estão lá por elas próprias e não por nós ou pelo prazer da partilha? Por isso é que quando as condições escasseiam, um dia, as pessoas acordam sozinhas. E admiram-se!!! 

O dinheiro e os bens materiais, não deixam de ser coisa maravilhosas. Mas são apenas o que são. Nunca se pode deixar que eles disfarcem a realidade nem que escondam os problemas. Há um provérbio que resume claramente o que quero dizer: "Não há nenhum homem rico que seja feio". Isto diziam as pessoas antigas relativamente ao poder que o dinheiro tem. Sempre tive esta frase na cabeça. E fez-me aprender que o dinheiro disfarça defeitos, maldades, faltas de amor, faltas de atenção e outras coisas que fazem muita falta aos corações. Por isso é que existem tantos peitos vazios em carteiras cheias. Mas cada um faz as suas opções relativas à importância que dá ao material e ao imaterial. Talvez valha a pena pensar um bocadinho sobre isto. Penso nisto muitas vezes particularmente quando vejo pessoas que eu adoro a levarem coices da vida para ver se aprendem o valor exato que as coisas e as pessoas têm. Para ver se fazem as opções corretas, principalmente no caminho da sua própria felicidade e para o bem da sua alma. Mas isto é uma linguagem que não se entende às primeiras. É preciso estar-se desperto para este quadrante na nossa existência para o podermos reconhecer e entender-se a sua linguagem. Mas não é por isso que cada um não faz o melhor de que é capaz. Até porque os coices da vida doem que se fartam. Doem tanto que cada um faz o melhor de que é capaz para encontrar caminhos que aliviem a dor. E na maior parte das vezes há muito pouco a fazer para ajudar as pessoas a encaminharem-se pelos caminhos menos tortuosos. Normalmente são os que não estão à frente do nariz e como tal, dão medo. E o medo trava a ação e as escolhas. E há escolhas que têm que ser feitas no mais intimo do nosso ser. Há coisas que só o próprio pode vivenciar.

É verdade, viver é uma ciência, particularmente se queremos cuidar bem da nossa alma, a tal que é eterna. A tal que se mostra todos os dias através dos nossos olhos. A tal que sabe infinitamente mais do que aquilo que nós sabemos. Daí que seja tão importante sermos intuitivos em vez de predominantemente racionais. Se a nossa alma sabe mais do que a nossa cabeça, porque não escutá-la? É muito mais sábia e complacente. Mais justa e verdadeira. 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Antíteses e negócios

Recebi uma reclamação por andar a escrever pouco. Uma das minhas queridas amigas, leitora fiel das minhas escrevinhices, disse-me que estava com saudades de ler as minhas coisas. E tem razão. Ultimamente tenho escrito pouco. E isto porque só me apetece escrever mais do mesmo: saudades, saudades, saudades. Também deve ser aborrecido, para quem lê, andar a ler a mesma coisa, uma vez e outra. Até a mim me enjoa escrever sempre sobre o mesmo tema. O problema é que só me apetece despejar estes assuntos. Se isto fosse um fadinho, diria que já tenho saudades de saudades não ter! Já tenho saudades de escrever sobre alegrias e coisas muito bonitas. Daquelas que também fazem parte da minha essência. Mas esta fase tem sido assim um bocadinho difícil de descascar. Ando aqui numa luta comigo própria para não me deixar ir na melancolia, para não hibernar, enfiar-me no meu casulo e desistir do que tantas saudades me causa. É uma luta que se vai travando diariamente. E vou dizendo, não desisto hoje, amanhã logo se vê. É assim como quem deixa de fumar e diz para si próprio: “Hoje não fumo. Amanhã, logo se vê.”

E assim vou levando a minha vida, entre uma vontade férrea e a vontade de desistir. Como é interessante que ambas coexistem em mim, parecendo antagónicas. Mas eu sou cheia de contradições. De quentes e frios. Tenho tanto de obstinada como consigo largar num abrir e fechar de olhos. Depende das teclas. E ando a tentar temperar estas minhas características que são produto do meu pouco saber no que diz respeito à gestão do tempo. E esta gestão do tempo a que me refiro não tem a ver com a agenda pessoal e profissional ou até com o tal relógio biológico. Tem a ver com uma noção de tempo mais lata e universal. Tenho pouca paciência para esperar que o tempo faça os seus milagres. Custa-me a aceitar, sem espinhas e sem dor, que existe um tempo necessário para tudo. Eu sei, tenho esta noção integrada, acredito piamente nisto mas ainda não consigo aceitar com um sorriso no rosto e a paz no coração. Por isso faço muita força e sou obstinada quando enfio alguma coisa no coração ou na cabeça. Parece mais fácil arrancarem-me a cabeça do que o que lá está enfiado dentro. Também quando alguém me entra no coração, mais vale arrancarem-me o coração. Será mais eficaz do que tentar arrancar a pessoa que lá conseguiu entrar. Este é o meu lado férreo. Enquanto eu acreditar que vale a pena, que é por ali, nada me demove. O meu outro lado, que não sei como lhe hei-de chamar, larga tudo num instante. Se entender que não vale a pena, que o esforço é vão, quando a esperança fica murcha, deixo ir sem espernear. Costumo dizer que sigo até ao limite. Quando o meu limite aparece, às vezes de forma inesperada ou inexplicável, deixo ir, largo. Tenho medo que este limite me apareça em forma de travadinha. Dá-me uma coisa má e desisto do que tenho que desistir. Sem apelo nem agravo. Tenho esta maneira esdrúxula de lidar com o tempo. Tenho pouca paciência para ele. Mas ando, francamente, a tentar melhorar este aspeto em mim. É uma das grandes aprendizagens da minha vida: aprender a lidar com o tempo que as coisas e as pessoas precisam. Cada um à sua maneira. Aprender a ter paciência. Ando mesmo a tentar. Para se chegar a determinado ponto, podem-se escolher tantos caminhos diferentes. Os mais longos e mais tortuosos, os mais difíceis, os mais lentos…os mais sofridos. Os caminhos existem para todas as escolhas. O sortido dos caminhos é como o sortido da farmácia: há remédios para todas as necessidades, feitios e gostos. Assim são os caminhos, depende do que se escolhe. E é mesmo assim. Não tem mal. O mal é de quem não é capaz de aceitar estas coisas com a naturalidade de quem sabe que a eternidade não tem tempo. Que Deus não nos coloca um prazo para evoluirmos enquanto almas. E que o que importa é chegar-se ao ponto onde se tem que chegar independentemente do caminho escolhido e independentemente do tempo que se demore. Eu sei estas coisas todas e estou plenamente convicta delas. Mas como alma bastante imperfeita que sou, ainda não consigo ter a serenidade necessária para encaixar tudo o que acredito no meu DNA. Mas garanto que me esforço. Estou numa dessas fases de esforço. E todos os dias peço a Deus que me ajude a ter a vontade férrea de permanecer em tudo o que é para o bem supremo da minha alma. E para não teimar, largando com toda a facilidade aquilo que me prejudica. Peço a Deus que me ajude a usar estas minhas características em meu benefício e em benefício dos outros. E Deus ajuda-me. Também todos os dias. Mesmo quando estou mais desanimada e sem saber o que fazer, Nosso Senhor sempre me ajuda. Basta que eu esteja atenta e que queira aceitar essa ajuda. Mas estes são outros vinte e cinco tostões, como se costuma dizer. É outra conversa.

A minha sorte é que é verão. E o verão anima-me muito. A luz, o calor e o sol, salvam-me a vida. Salvam-me o humor. Deixam-me também mais iluminada. É impossível não se achar que a vida é linda quando o clima está de feição. Quando a natureza atinge o seu esplendor, o seu pico. Quando o mar se acalma e vem rebolar aos nossos pés. Como é maravilhoso, o mar. Tudo aquilo que me aborrece ou que me faz sofrer fica muito mais pequenino diante do mar. É que os aborrecimentos têm um medo do mar que se pelam! Encolhem-se e ainda bem! Vou vê-lo cheia de minhocas na cabeça e venho de lá novinha em folha! (É que as minhocas que habitam na nossa cabeça também têm medo do mar. Fogem com os sete pés que não têm. As minhocas não têm pés. Mas rabeiam muito, mesmo assim.). Diante do mar, todos os meus problemas ficam microscópicos. Eu diminuo de tamanho, mas a minha alma fica muito maior e iluminada! E é isso que interessa. Aquela energia temperada a flor de sal dá-me o maior dos ânimos, a maior das alegrias. Uma alegria que eu não sei explicar com palavras. Que só eu compreendo. É como se eu tivesse um amor incondicional pelo mar. Um amor transbordante que emaranha por todas as minhas dimensões. Não sei dizer melhor. Só sei dizer que é assim. E tem sido um crescendo ao longo da minha vida. Não foi uma coisa que me bateu….foi sendo e foi crescendo devagarinho, sem eu dar por isso, até ao dia que me caiu a ficha. Até ao dia em que decidi que não sou capaz de viver sem o mar por perto. E tenho os seus sons entranhados nos meus ouvidos e os seus odores nas minhas narinas. Estas sensações são bocadinhos de mim própria. Cada um tem as suas excentricidades e eu tenho esta: uma relação inexplicável, extensa e profunda com o mar. Uma relação que me ajuda a lidar com todas as outras relações que estabeleço com as pessoas à minha volta. Tento transpor a calmaria para tudo o que me rodeia. A calmaria não faz parte da minha essência, é um bem escasso e precioso que tem que ser importado. O nosso interior também vai sendo construído por importações. Todos os bens que existem fora devem ser importados para engrandecer o nosso bem interior. E quando juntamos um bem a outro bem que já existe, vamos transformando a matéria-prima da qual somos feitos. E quando a nossa construção está bem sólida já podemos exportar o que conseguimos produzir. Não é possível exteriorizar o que não se possui. Não é possível exportar um bem que não nos pertence. Esta coisa do dar e do receber não é um negócio virtual daqueles que é tratado todo on-line. Esta troca de bens entre o nosso interior e o nosso exterior tem que ser bem tangível. Pois assim é que se fazem bons negócios daqueles em que todas as partes saem contentes e a ganhar. E se a vida parece ser um negócio, escolho o mar como meu mediador, como a minha plataforma logística de interação com o mundo. E melhor não sei dizer.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Uva-passa

Estou a fazer um esforço para escrever. É como se estivesse a fazer um esforço para respirar. O que para mim é muito dramático. 

Mas tenho tentado conter tanto a minha torneira emocional que não há pinga de nada. Contenção tem sido o imperativo no meu estado de espírito. Mas já estou aborrecida de tanto conter. Vai contra a minha natureza. E até o corpo já começa a dar sinal, começa a queixar-se destas maldades que ando a fazer a mim própria. A conter, a fechar o coração, a gerir a impotência. Esta coisa de lidar com a impotência é Karma. Ver as coisas e as vidas a entortarem ou a manterem-se tortas, sem nada poder fazer para as endireitar. Não são as minhas vidas, são as dos outros. São o produto de escolhas e de caminhos que se seguiram. E como se costuma dizer nestas linguagens mais espiritualizadas, se cada um planta o que lhe dá na real gana, colhe exatamente o produto da sua sementeira. Esta é uma lei universal para a qual não há escapatória. Escolhemos o que queremos mas as consequências das nossas escolhas vêm sempre parar-nos ao colo. 

Eu sei estas coisas e também sei que tudo isto é fundamental para a evolução da nossa alma. Mas não consigo deixar de sofrer com as pessoas que para mim são tão significativas. E a impotência também me enerva. E assim, para tentar sobreviver a estes tornados que andam a virar as vidas dos meus queridos ao contrário, fecho tudo o que há para fechar. Quer dizer, o que consigo fechar. Como o meu coração tem a sua vontade própria é preciso trazê-lo bem trelado. E às vezes até açaimado! Deus me livre! Esgoto-me nestas lutas comigo própria. E faço um esforço imenso para tentar integrar a impotência e a perda na minha vida. Faço um esforço para tentar que esta integração decorra de forma saudável e construtiva. A história da minha vida contém episódios de perda e de impotência. E acredito que tudo tem um propósito e uma finalidade, mesmo quando não consigo ver um palmo à frente do nariz. Nestas alturas, procuro recolher-me um bocadinho, refletir e tentar observar a vida de todos os prismas. Nem sempre consigo. A tentação de hibernar, de desligar a pilha, de me afastar, de deixar ir, é muito grande. E tento contrariar esta tendência que tenho. É uma forma muito básica de lidar com o sofrimento. É uma resposta imediata. E tendo esta noção, tenho que a contrariar. Porque não posso hibernar e perder vida ou perder pessoas (pelas minhas próprias mãos) porque não as soube agarrar num momento em que elas nem sabiam de que terra eram…procuro também pensar que apenas vemos, nos outros, as pontinhas dos icebergues. Para além do gelo da superfície, existe, em profundidade, um universo que condiciona toda a parte visível. Sei ainda que o mesmo comportamento pode ter causas muito diversas. E que a nossa interpretação é apenas feita à luz da nossa referência. E existem tantas referências quantas as pessoas. Apesar de saber estas coisas todas, também tenho os meus momentos de fraqueza, em que o sofrimento é maior do que o resto. E quando estes momentos se aproximam, tranco tudo o que encontro por mim a dentro e por mim a fora. Para me salvaguardar. Para conseguir prosseguir com a vida sem que se note muito do que se passa cá na alma. Mas tudo isto é um erro. Guardar emoções que nos entristecem, que nos densificam, é uma grande asneira. Fechar-me sobre mim própria é uma asneira ainda maior. O pensamento torna-se circular porque ninguém me ajuda a ver outro ponto de vista. O corpo apita e começa a somatizar, os olhos perdem o brilho, o sorriso e a voz perdem a sua alegria natural. Quando já me estou a sentir como uma uva-passa, bem amachucada por mim própria, lá acordo para a vida. É que quando se tranca o coração para não se sofrer tanto, também lá ficam fechadas a esperança, a alegria e a avidez de vida. Aquelas coisas que melhor me definem. Trancar o coração é um dos disparates que de vez em quando faço. Principalmente quando não sei o que fazer com tudo o que sinto. Tranco e deito a chave para qualquer lado. A minha sorte é que lhe tenho um cordelinho atado por questões de segurança. Da minha própria segurança. E quando começo a escorregar muito, a deixar-me ir na minha tristeza, puxo o cordel e lá vem a chave ter comigo. Estou com ela na mão. Ainda não resolvi abrir a fechadura. Estou aqui num ponto de equilíbrio em que tenho que me decidir. Mas tenho medo da avalanche que aí possa vir. Se destranco o coração, vou também destrancar as lágrimas e lá tenho que as deixar vazar até à última gota. Se o fizer, tenho que estar preparada para lavar a minha alma com todas as lágrimas salgadas que cá cabem dentro. E para lavar a alma, os olhos têm que ficar com muitos papos e muito vermelhos. Gastam-se muitos lenços de papel e molham-se muitas almofadas. Não sei me apetece. Não sei se estou capaz de o conseguir fazer. Sinto alguma fragilidade e algum desalento. Tenho que robustecer as estruturas para poder soltar os cavalos. E ficar como nova, pelo menos até à próxima provação que a vida tiver guardada para mim. Como sempre, peço a Deus que me dê a força, a coragem e a sabedoria para lidar com o que se vai apresentando. E, nesta altura do campeonato, deveria estar a pedir a Deus que me ajudasse a aceitar, de forma serena e pacificada, os cenários que encontro à minha volta. A aceitação sem sofrimento é a mais autêntica forma de respeito que conheço. Ao aceitar pacificamente as opções dos outros, estou a respeitá-los profundamente. Sem dor. Sem mágoa. Como me preocupo imenso com o bem-estar da alma, era neste patamar que gostaria de me encontrar. Aceitante em vez de resignada. A resignação faz sempre par com o sofrimento. São um casal inseparável. A aceitação tem sempre uma correlação direta com o amor incondicional. Muito mais bonito, não é?